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“CHUVA É CANTORIA NA ALDEIA DOS MORTOS” – Por dentro da diversidade cultural brasleira

O cinema é rico em mostrar ao público universos, crenças, hábitos e vivências desconhecidos por ele, criando laços de empatia com sujeitos variados durante o processo. Assumindo as perspectivas de seus personagens retratados, os filmes permitem um mergulho sobre a realidade de grupos sociais minoritários, que se encontram em uma posição de marginalização na sociedade. CHUVA É CANTORIA NA ALDEIA DOS MORTOS oferece a possibilidade de identificação, conhecimento e deslumbramento com alguns indígenas localizados no interior do Tocantins.

Cartaz de “Chuva é cantoria na aldeia dos mortos

O povo Krahô vive em uma aldeia localizada em Pedra Branca, no interior do Brasil. Nessa região, está o jovem Ihjãc, que foi surpreendido pela visita do falecido pai em uma cachoeira pedindo a festa de fim de luto para se desligar da vida terrena. Enquanto ele planeja a tradicional cerimônia, um espírito o procura para torná-lo um futuro pajé para sua comunidade. Como Ihjãc não está muito disposto a assumir a exigente função, passa a se questionar se o seu futuro não estaria fora de sua aldeia.    

Os diretores Renée Nader Messora e João Salaviza adotam uma postura antropológica para a filmagem das sequências, posicionando a câmera discretamente e da forma menos intrusiva possível na dinâmica dos personagens. A proximidade da câmera em relação aos indígenas evita um estilo frio e academicista, típico de uma eventual investigação curiosa feita por estudiosos fechados em próprio mundo de laboratório. Fatos comuns do cotidiano daquele local são retratados, dentre eles a plantação na roça, o cuidado com os filhos, os banhos no rio e as conversas em volta da fogueira. A imersão no universo dos Krahô também é possível graças à iluminação natural apoiada pelo por do sol, pelos reflexos do fogo e pelas sombras da noite; aos sons diegéticos criados com diálogos, canções características e ruídos de animais e das águas de chuva ou de cachoeira; e aos longos planos estáticos.      

Além de retratar momentos universais de sobrevivência ou interação social, o filme também trabalha aspectos relativos à cultura daquele povo sem julgamentos ou juízos de valor. Os conflitos centrais do protagonista passam por sua religiosidade específica: a crença em uma cerimônia de luto para garantir a passagem espiritual de seu pai após a morte; e a escolha de Ihjãc como um potencial pajé de habilidades místicas por um espírito sob a forma de uma arara. Outros elementos culturais também são abordados para detalhar ainda mais suas características, como a importância dos homens mais velhos na função de líderes ou sábios e da oralidade para a transmissão de conhecimentos e histórias (o avô de Ihjãc relata uma tragédia ocorrida na aldeia e realizada por fazendeiros locais que ouviu de sua mãe).  

Não apenas os traços internos dos Krahô são desenvolvidos pelo roteiro. As difíceis relações entre os indígenas e os homens brancos também são abordadas, inclusive nas primeiras sequências com menções rápidas à violência dos fazendeiros invadindo a aldeia no passado e buscando votos para as eleições locais. Novas dificuldades são colocadas no ponto da narrativa em que o protagonista se dirige à cidade grande porque ele sofre com problemas de comunicação, o desconhecimento de situações comuns do meio urbano, os contratempos provocados pela falta de documentos (como a carteira de identidade), o desconhecimento geral acerca dos costumes indígenas e a incapacidade de conseguir viver na cidade.

Ainda que não seja exatamente seu tema, o filme também abre espaço para discussões a respeito da inserção do indígena na sociedade brasileira. Eles precisam ter acesso a direitos básicos da cidadania como qualquer outro habitante do país (documentos oficiais e serviços de saúde, por exemplo), mas isso não significa que a posse de suas terras se tornaria algo irrelevante e secundário. Outra questão essencial se refere ao fato de que a cidadania e prática não indígenas (jogar futebol ou usar esmalte) não os desqualificam como indígenas – no caso específico do protagonista, ainda há a sensação de desenraizamento que sente por não se encaixar na sociedade do homem branco e não aceitar a posição que se espera dele na aldeia.

À medida que os blocos narrativos passados na floresta e na cidade se desenvolvem, os dois diretores constroem planos expressivos de uma beleza poética –  as imagens conjugam harmoniosamente cenário e personagens, como se vê nas cenas filmadas em uma cachoeira à noite e em uma rua também à noite quando tochas são incendiadas).  Além disso, seus enquadramentos conferem maior destaque aos indígenas, chegando a deixar fora de campo personagens brancos, como acontece em um diálogo entre Ihjãc e uma funcionária da Casa de Apoio.

As decisões estéticas de “Chuva é cantoria da aldeia dos mortos” criam uma poesia extremamente compatível com o meticuloso registro do cotidiano e da cultura da comunidade indígena em Tocantins. O ritmo cadenciado da narrativa atende justamente ao seu propósito de fazer um retrato sensível e empático de um povo, valorizando a identidade, personagens marginalizados e sua bela relação com a natureza. Ao final da produção, entender seu título é o ponto chave e derradeiro para sentir o prazer intelectual e sensorial que se encerra muito bem com a fusão entre o protagonista e o meio ambiente ao seu redor.

Um resultado de todos os filmes que já viu.