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“CREED: NASCIDO PARA LUTAR” – Franquia reinventada

De 1976 até 2015, seis filmes da série do boxeador Rocky Balboa foram produzidos. Todo o trajeto do personagem levou à criação de um ícone no cinema: a ascensão de um indivíduo comum, as glórias profissionais, as lutas no ringue contra adversários e fora dele contra as dificuldades da vida, a família e as amizades formadas, as dúvidas quanto aos efeitos do tempo e o amadurecimento como um treinador. A continuidade da franquia seria possível somente com as reinvenções e as novas trilhas propostas por CREED: NASCIDO PARA LUTAR.  

O filme aborda a trajetória de vida de Adonis Johnson, filho de Apollo Creed com uma de suas amantes, até ser adotado pela viúva de seu pai: a infância difícil marcada pela ausência dos pais, ambos mortos precocemente, e as constantes confusões em reformatórios juvenis. Interessado por boxe, ele inicia sua carreira em lutas amadoras no México, mas logo se profissionaliza e convence o antigo amigo de seu pai, Rocky Balboa, a treiná-lo. O foco, dessa vez, é retratar a ascensão de um jovem pugilista, atormentado por seus próprios conflitos internos, tendo como mentor em uma posição coadjuvante Rocky – tais escolhas fornecem um frescor à narrativa que impede a repetição de fórmulas ou o desgaste de estruturas dramáticas já conhecidas.

O centro nervoso do filme é o estabelecimento da relação entre Adonis e Rocky. A interação entre eles é uma mistura de pai/filho e mestre/aprendiz, enquanto os dois precisam enfrentar suas próprias lutas internas; a amizade construída entre eles os ajuda nos dilemas que possuem. Adonis aprende a lutar e, acima de tudo, a lidar com seu temperamento imprevisível potencializado pela falta da figura paterna; Rocky aprende a lutar contra a doença que já o aflige e também a recuperar sua importância, não apenas como uma mera imagem nebulosa do passado. A estrutura do roteiro permite acompanhar essa dinâmica, pois cada diálogo proporciona o fortalecimento dos dois personagens.

A construção dramática da narrativa os mostra como personagens multifacetados. Adonis aparece, inicialmente, como um jovem angustiado pela infância tumultuada por problemas familiares, pela vivência em reformatórios e pela impulsividade (os problemas são simbolizados pela cena em que é convidado pela viúva do pai para morar com ela e assume uma posição defensiva com os punhos cerrados, apenas gradativamente desfeita ao saber do que se trata). Além disso, há sua complexa percepção do pai: mostra indignação ao ser comparado a Apollo e ao ter suas qualidades próprias contestadas (em dado momento, ser chamado de “Baby Creed” desperta uma reação violenta, já em outro, ser lembrado dos feitos do pai causa uma reação de forçada indiferença); nutre orgulho e admiração contidas pelo talento do pai (exemplificada pela cena em que assiste uma luta antiga entre Apollo e Rocky no Youtube e é enquadrado como se estivesse no ringue). A atuação de Michael B. Jordan consegue transitar muito bem pelas dores, angústias, explosões de violência e pela dedicação aos treinos.

Já Rocky é tratado como um sujeito amoroso, ainda apegado a seus entes queridos ao visitá-los no cemitério e conversar com eles, mas abalado pelos sofrimentos já experimentados na vida – tais dores pessoais o levaram a recusar, inicialmente, qualquer tratamento médico para a doença contraída. Sua bondade é vista também no paternalismo com que trata Adonis, não apenas o instruindo no boxe, mas também passando ensinamentos válidos para a vida; é tocante presenciar os esforços feitos para participar ativamente dos treinos, devido ao peso da idade. Em alguns momentos de maior fragilidade e desordem emocional, percebemos a entrega física de Sylvester Stallone e as marcas deixadas no personagem pelo tempo e pela doença.

Tecnicamente falando, “Creed: Nascido para lutar” concilia a nostalgia e a delicadeza na homenagem que presta aos filmes anteriores: filma em planos abertos a luta final como um espetáculo midiático e traz elementos, cenários e objetos emblemáticos dos outros filmes da franquia “Rocky” (as ruas da Filadélfia, o antigo centro de treinamento, o calção de Apollo…). O diretor Ryan Coogler também cria sua marca pessoal e torna a narrativa dinâmica, por exemplo, nas filmagens das lutas profissionais de Adonis, quando a câmera se posiciona muito próxima ao golpe dado em seu rosto e segue os efeitos dessa ação; além de tornar os movimentos da câmera muito semelhantes aos deslocamentos dos boxeadores no ringe (as aproximações e afastamentos que transmitem a sensação aos espectadores de que fazem parte das lutas).

Outro destaque técnico do filme é o design de som. Nos instantes anteriores às lutas mais importantes, a euforia da plateia é sentida enquanto os pugilistas ainda estão nos bastidores, impregnando as cenas de tensão e de expectativa – é curioso perceber as distintas reações de Adonis antes de cada luta ao ouvir esses sons, da aflição inicial a uma confiança serena e determinada. Durante as sequências de confronto, os impactos dos golpes também sentidos devido ao realismo dos ruídos ouvidos.

As características próprias da franquia “Rocky” ainda estão presentes (a derrota na luta inicial, os pesados treinamentos, o acúmulo de dificuldades no trajeto de preparação, o resgate e o renascimento da confiança e a glória da luta final). Assim, o espírito dos filmes anteriores protagonizados por Stallone não se perdeu, porém a ele foi acrescido uma renovação sob o olhar de Ryan Coogler e a performance de Michael B. Jordan. 

Um resultado de todos os filmes que já viu.