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“Crimes obscuros” – A pior comédia da carreira de Jim Carrey

Inspirado no artigo “True crime: a postmodern murder mystery” (em tradução livre, “Crime verdadeiro: um mistério de assassinato pós-moderno”), escrito por David Grann e publicado em 2008 pela The New Yorker, CRIMES OBSCUROS é um thriller pavoroso. Mesmo não podendo ser esse o critério, o fato de o filme ter sido produzido em 2016 e chegar aos cinemas brasileiros apenas em 2019 é indício da sua má qualidade, confirmada por quem aguenta assistir a ele.

Trata-se da história de um policial, Tadek, que percebe semelhanças entre um crime descrito no livro do escritor Krystov Kozlow e um crime real – um assassinato não solucionado pelas autoridades. Obstinado a resolver o caso, Tadek investiga Kozlow e descobre um submundo que mescla mentiras, drogas e sexo.

Cartaz de “Crimes obscuros

Com o descalabro de roteiro que Jeremy Brock escreve, era impossível que o diretor grego Alexandros Avranas (cujo longa de estreia foi o ótimo e impactante “Miss violence”) fizesse um filme minimamente razoável. As falhas do texto são incontáveis, começando pelo incongruente amadorismo da polícia (o resultado do polígrafo não deveria ser dado sem a presença do investigado? Se Tadek trabalharia remotamente, por que interroga um suspeito no prédio da polícia e na companhia de um colega?), continuando pelas personagens contraditórias (se a mãe não queria que a filha ouvisse as perguntas de Tadek, por que permitiu que ele as fizesse onde a menina estava?) e pelas situações inverossímeis (quem acreditaria que Koslov sofreu tanto quando preso, considerando que saiu sem nenhuma lesão aparente?) e terminando pelo desfecho óbvio e previsível.

A construção das personagens é também um problema grave da película. Jim Carrey (em um visual absurdamente distinto daquele que costuma ostentar) parece se esforçar para tornar Tadek crível – oportuno recordar que o ator já demonstrou talento para papéis sérios, em “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” e “Número 23” (ignore-se a diferença qualitativa entre as três produções) -, contudo o fiasco é incontornável. Suas motivações são obscuras (leia-se, desconhecidas do espectador) e seu backstory é preguiçosamente apresentado (por que Greger iria atrás dele? Por que o relacionamento com a esposa é daquele jeito? Qual a função narrativa da sua mãe?). Quando sua esposa o aconselha afirmando “só não esqueça quem você é”, a réplica não poderia ser nada mais que uma pergunta: quem ele é?

Como antagonista, é verdade que o papel é vazio, mas a atuação caricata de Marton Csokas é ofensiva à inteligência do público – ou ele achava que a sobrancelha levantada bastaria para tornar Kozlow enigmático? -, apenas não tão ofensiva quanto o roteiro. Talvez a temática que o plot engloba tenha seduzido Charlotte Gainsbourg a participar da produção: violência e corrupção policial, marginalização social dos drogaditos, submundo do sexo fetichista, tudo envolto em um crime de difícil solução. Entretanto, os temas complexos são tratados de maneira superficial e fria, além de irrefletida, como se frases de impacto do tipo “pessoas não querem justiça, querem bem versus mal” fossem suficientes para dar profundidade ao texto.

Considerando que o script é, em regra, pouco verbal, o diretor age bem ao dar um ritmo inicial lento (caso contrário, correria o risco de fazer um média-metragem), até porque, quando há verbalização, ele se esforça para ser grosseiro. A direção não segue essa ideia, tendo como única opção passível de severas críticas a objetificação feminina (há um evidente exagero na exposição do corpo feminino, enquanto o masculino é deliberadamente escondido, exceto em uma cena). No mais, Avranas apenas decepciona: a estética do longa é quase monocromática (a maioria das personagens praticamente só se vestem de preto, não havendo alívio algum em uma fotografia escura, fosca e mesmo nublada); os planos predominantemente fechados não têm utilidade fílmica; os simbolismos, quando não clichês (o vômito da personagem que vive um drama é de uma singeleza primária), são simplistas (a luminária fez de Tadek e Koslow duas crianças); e a montagem dá pequenos saltos que tornam a narrativa ainda mais embaraçada.

Não fosse pelo tema sério, “Crimes obscuros” poderia ser qualificado como uma piada de mal gosto. Se fosse esse o caso, Jim Carrey certamente teria participado da pior comédia da sua carreira.

Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.