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“DE ENCONTRO COM A VIDA” – Medidas corretas de comédia, drama e romance

Ainda que o gênero das comédias românticas pareça saturado, eventualmente aparecem filmes surpreendentes. Foi assim com “Doentes de amor” e também é assim com DE ENCONTRO COM A VIDA (ambos baseados em histórias reais), filme alemão edulcorado, mas sem exagero ao usar humor, drama e romance em doses adequadas.

O protagonista do longa é o jovem Saliya (ou Sali), que esconde de todos (exceto seus familiares) que possui uma deficiência visual em razão da qual sua visão ficou reduzida para cinco por cento. Sabendo que assim terá menor espaço, Sali continua seus estudos, procura um emprego e tenta engatar um relacionamento, se esforçando para que os outros não descubram que ele não consegue ver quase nada.

Esse segredo é uma virtude inicial do plot (mas que segue um rumo questionável ao final). Surge preliminarmente uma dúvida: Sali não conta para os outros por ter vergonha, porque quer se superar ou porque sabe que deficientes visuais encontram menos portas abertas? O rumo questionável reside justamente na solução simplista que ele dá em uma de suas conclusões. Ignorando isso, é fascinante a superação que o protagonista impõe a si mesmo, em especial ao adotar estratégias para driblar as pessoas para quem mantém sigilo (por exemplo, oferece a mão para ser apertada antes da outra pessoa, ideia da sua irmã). Sabendo que precisa se dedicar o dobro que os demais, aproveita a ampliação dos outros sentidos (em especial o olfato e a audição) e admiravelmente não se vitimiza, explorando sua inteligência notável.

Com isso, Sali consegue se formar em uma “escola normal”, com boa média. No âmbito dos relacionamentos interpessoais, ele encontra extremos: um pai cruel e frio – que chega a afirmar que ele “não é normal”, dentre outros absurdos -, uma mãe que o apoia, uma irmã que o ajuda, amigos compreensivos e um chefe carrasco. Aconselhado a não sonhar alto (já que poucos estabelecimentos contratam pessoas com deficiência), ele ignora a desmotivação alheia – o filme cumpre uma função social ao colocar os holofotes sobre um grupo ignorado de pessoas vulneráveis, que têm dificuldade em todas as esferas da vida, mas que não devem abrir mão de seus sonhos.

Evidentemente, o protagonista encontra inúmeras dificuldades para concretizar seu sonho, além de momentos sutis em que as pessoas, propositalmente ou não, o magoam (certamente não é fácil ouvir que é uma vantagem não poder enxergar para não precisar ver uma vista horrível). São seus amigos lhe dão suporte, principalmente Max (Jacob Matschenz), alguém que só quer aproveitar a vida (e muitas vezes consegue), mas que percebe a personalidade encantadora de Sali, um altruísta alegre e bondoso (que ajuda Max mesmo sem conhecê-lo). Kostja Ullmann é excelente ao interpretar o papel principal, direcionando com perfeição seu rosto e seus olhos, considerando que vive alguém com reduzidíssima visão (além de ser um ator muito carismático). Já Laura (Anna Maria Mühe) é pouco aprofundada e existe apenas para ter romance na comédia – o humor é sensacional, o romance, nem tanto.

A direção de Marc Rothemund é bem discreta, fazendo o óbvio nas câmeras subjetivas e dando closes clichês no ápice do drama da película (outro clichê é o uso da dispensável narração voice over). É até mesmo inesperado um clímax dramático tão intenso e longo como o do filme. O design de produção é muito bom, porém talvez não condizente com um hotel tão luxuoso. A trilha sonora é permeada por músicas de duas duplas: Geldreich e Schowi (como “Happy days”, “Invitation” e “Sali’s main theme”) e Djorkaeff e Beatzarre (como “Tomorrow’s calling you” e “My swing” – esta é muito similar ao clássico “It don’t mean a thing (if it ain’t got that swing)”, de Duke Ellington, só que mais parecida com a versão de Ella Fitzgerald. O jazz está presente em canções como “Italian dinner” (de Moe Jaksch), sem ignorar músicas mais modernas, como “Take me high” (da The Editz feat. Cosmo Klein) e outras mais dramáticas, como “Do the right thing” (da D/troit).

A primeira canção que toca, nos créditos iniciais e no prólogo, é “Time with you” (de Marc Robillard), dando a entender que se trata de um filme bem good vibes. Não que “De encontro com a vida” não o seja, mas é muito melhor que as produções rasas do gênero, o que comprova que, mesmo que saturada, a área ainda pode ser prolífica. O acerto, nesse caso, reside nas medidas de comédia, drama e romance, sem errar nas proporções – o resultado é um filme bem divertido e agradável, sem ser superficial ou frívolo.

Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.