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“DE PERNAS PRO AR 2” – Repetição disfarçada de continuação

*Clique aqui para ler a crítica do primeiro filme, de 2010.

Determinadas ideias não duram mais do que um filme, especialmente quando se trata de uma que não possui muitas camadas e possibilidades de desenvolvimento. DE PERNAS PRO AR 2  foi lançado em 2012, se aproveitando do carisma do elenco e do sucesso comercial de seu antecessor de dois anos antes para construir uma comédia despretensiosa e leve. Entretanto, depender da mesma estrutura e de conflitos idênticos já vistos anteriormente faz dessa continuação apenas uma repetição infeliz de algo que já era, originalmente, irregular.

Cartaz de “De pernas pro ar 2

A narrativa novamente se apoia na dificuldade entre equilibrar vida pessoal e profissional da empresária Alice. Agora, ela está ainda mais bem sucedida no mercado erótico, planejando abrir a primeira filial de sua sex shop em Nova York, ao lado da sócia Marcela. A grande preocupação em lançar um novo produto para as novas lojas a faz sofrer um surto por excesso de trabalho, responsável por mobilizar sua família na tarefa de deixar Alice mais relaxada e distante do estresse.

Em primeiro lugar, essa comédia não se fundamenta em elementos estéticos complexos ou chamativos. A direção de Roberto Santucci indica como outros aspectos da linguagem cinematográfica devem seguir de maneira discreta, realista e evocativa do estilo televisivo: a câmera é usada para movimentos simples de plano e contra-plano e enquadramentos tradicionais do cinema clássico. Quando algo ligeiramente diferente é feito, o resultado não é nada positivo: o diretor não constrói a comédia em sequências que apostam na repetição óbvia e prolongada das ações (a confusão em um restaurante e uma conversa interrompida por ligações no celular, por exemplo); a montagem das sequências investe em um contraste aleatório e sem função entre momentos de erotismo, cenas cotidianas e personagens inocentes (um bebê, por exemplo); e os efeitos visuais amadores inserem digitalmente cenários de Nova York sobre os estúdios onde os atores estão.    

Em razão da simplicidade e das limitações das características estéticas, poderia se esperar uma atenção maior ao roteiro. O ponto de partida da narrativa parecia levar a história para outras direções, mostrando como a obsessão de Alice por trabalho poderia prejudicar sua própria saúde e como seria desafiador para ela aproveitar apenas um momento de lazer. Contudo, o desenvolvimento dessa premissa recai nas mesmas situações e conflitos já existentes no filme anterior: a negligência em relação à família, os riscos de perder o casamento e o contato com o filho e o aprendizado de que apenas o trabalho não é suficiente para a vida. O único arco novo acrescido à trama envolve um triângulo amoroso entre Alice, seu marido e um executivo que surge repentinamente e é resolvido de forma igualmente rápida.

Trazer de volta o mesmo plot e desdobramentos semelhantes cria a sensação de que o primeiro filme não existiu para os personagens. Eles estão basicamente iguais ao que já foi visto antes, sem apresentar transformações, evoluções dramáticas ou conflitos diferentes: Alice continua hiperativa se desdobrando entre trabalho e família com atitudes e expressões agitadas; o marido ainda é compreensivo e dedicado à família, apesar dos prejuízos causados pela sobrecarga de trabalho da esposa; a mãe segue sendo a companheira progressista que apoia a filha e cobra dela mais tranquilidade e conforto na vida; e Marcela ainda é a sócia sensual com problemas amorosos. Desse modo, os atores somente replicam as atuações feitas anteriormente.

Nem mesmo o humor ocasional sobre o erotismo e a liberdade sexual que já havia funcionado tem seu espaço. Quando o texto retorna a essas piadas, é para fazer trocadilhos infames (a sequência em que são apresentados possíveis novos produtos a Alice e Marcela), dignos de uma comédia adolescente infantlizada ao extremo. Outras tentativas de humor também fracassam, devido à falta de sutileza e timing para sua construção: os exageros em momentos específicos da atuação de Ingrid Guimarães (como quando toma um remédio com champanhe) e cenas que contrariam algo dito segundos antes (um personagem diz que nunca fará algo para instantes depois ser mostrando tomando aquela exata atitude).

À medida que “De pernas pro ar 2” se desenrola, repetições e cópias de roteiro, humor e desenvolvimento de personagens do longa metragem de 2010 tomam conta da tela. Explorar em demasia uma ideia suficiente apenas para um único projeto provoca essa certeza de dejà vú, de assistir ao mesmo material ininterruptamente sem acréscimos, perspectivas novas ou evolução narrativa e dramática se desgastar cada vez mais. Então, quando os créditos finais indicam um terceiro filme, dessa vez passado na França, o público já sabe o que esperar.

Um resultado de todos os filmes que já viu.