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“DESLEMBRO” – O poder da memória [20 F. Rio]

A memória é um fenômeno complexo que vai além do ato de lembrar eventos já ocorridos. Ela envolve também o ato de esquecer, de atribuir significados ao passado, de fazer lembrar e de fazer esquecer (esses dois últimos processos geralmente realizados por Estados ou instituições). Ao se referir ao período da ditadura militar brasileira, a construção de memórias se torna ainda mais desafiadora por conter questões relativas às violações dos direitos humanos e das posições assumidas (ou não) por governos diante da problemática. Considerações assim estão presentes no filme DESLEMBRO.

O filme conta a história de Joana, uma jovem que teve o pai preso durante a ditadura brasileira e que passou boa parte de sua vida em Paris (cidade de exílio do resto de sua família). Após a Lei da Anistia, a garota retorna, a contragosto, ao Brasil e memórias desconfortáveis vêm a tona. O filme segue a perspectiva vista, por exemplo, em “O ano em que meus pais saíram de férias” e em “Infância clandestina“: o ponto de vista narrativo não é de alguém envolvido diretamente no regime militar ou na resistência a ele, mas sim de uma jovem que não compreende totalmente as lutas políticas das quais seus pais fazem parte.

A cineasta Flávia Castro e a diretora de fotografia Heloisa Passos representam o olhar juvenil através do posicionamento da câmera na altura de seus olhos ou de seus irmãos (por vezes, cortando partes do quadro e traços dos adultos em cena). Além disso, a narrativa apresenta as informações referentes ao passado do país, a trajetória daquela família e seu momento atual vivendo no Rio de Janeiro sempre a partir de descobertas ou de recordações da personagem.

Apesar do direcionamento dado pelo olhar de Joana, o filme não se furta de pontuar aspectos importantes da história recente do Brasil. O roteiro apresenta o contexto das décadas de 1970 e 1980, atravessando os governos dos presidentes Emilio Médici e Ernesto Geisel. É possível perceber referências à intensa repressão estatal dos “anos de chumbo”; aos desaparecidos políticos que, de algum modo, resistiram ao autoritarismo vigente e tiveram desfechos trágicos pouco esclarecidos; ao perdão a presos políticos na Lei da Anistia; a uma família de exilados que precisa se readaptar ao seu país natal; aos protestos sociais contra a ditadura (exemplificados em uma sequência passada em um aeroporto); e ao contexto latino-americano de ditaduras, como a do Chile, e projetos revolucionários, como os Sandinistas na Nicarágua.

Esses temas sociopolíticos também emergem das memórias (re)construídas e atualizadas por Joana em seu tempo presente, já que elas não podem ser sufocadas e sempre se fazem sentir. As lembranças sobre seu pai retornam aos poucos através de um som, de um lugar ou de uma situação específica e são filmadas com um padrão visual bem estabelecido por Flávia Castro e Heloisa Passos: a movimentação trêmula da câmera e a mudança brusca de seu foco para registrar sem uma clareza definida cenas do passado.

A ditadura em si e seus significados para a família provocaram diversas consequências impactantes que alteraram sua rotina diária e abalaram suas emoções. Joana tenta ocultar momentos do passado que a machucam, porém sofrimentos ainda assim ressurgem; a protagonista não aceita o fato de o pai ser dado como morto sem notícias exatas do local da morte e do paradeiro do corpo; vários personagens carecem de esclarecimentos concretos sobre o destino dos desaparecidos políticos; e a família que se formou tendo mãe, madrasta, padrasto, meio irmãos e irmãos de consideração (todas as combinações entre seus cinco integrantes) e ainda tem fortes ligações com a França graças à manutenção do idioma em solo brasileiro. Os impactos emocionais são ainda mais evidentes quando se analisa a penetração dos conflitos políticos no seio familiar: os pais falam sobre política com os filhos acreditando que estes possam entender, quando na realidade não compreendem o significado de tudo aquilo (alusões a movimentos revolucionários chileno e nicaraguense, a Trotsky etc.); e o pai relega a segundo plano as necessidades sentimentais de seus filhos em favor da política (exemplificado pelo fato de não saber que seu filho mais novo estava urinando na cama).

Não apenas o passado é tratado com grande importância. O presente de Joana (Jeanne Boudier) é trabalhado dentro de uma jornada de amadurecimento própria da adolescência: ela se torna uma mulher forte, sensível e carinhosa que quer descobrir mais sobre seu pai mas também se preocupa com o bem-estar dos irmãos. A composição dramática da personagem é desenvolvida na relação com outras duas personagens femininas: sua mãe (Sara Antunes), engajada politicamente desde que possa esconder suas angústias emocionais ligadas à perda do marido; e sua avó Lucia (Eliane Giardini), de personalidade bem humorada, mas firme, na luta por informações de seu filho.

O encontro entre os temas da ditadura militar, das memórias do período e do olhar juvenil para questões tão complexas torna “Deslembro” uma obra atemporal. Atemporal porque denuncia as diferentes mazelas do autoritarismo e chama a atenção para a necessidade de preservar memórias e relatos pessoais sobre aquele período. As palavras, as discussões, o estilo e os sentimentos expostos e potencializados pelo filme reverberam em qualquer tempo da história do país como um alerta e como um registro artístico de qualidade.           

*Filme assistido durante a cobertura da 20ª edição do Festival do Rio (20th Rio de Janeiro Int’l Film Festival).

Um resultado de todos os filmes que já viu.