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“DILEMA” – Dez episódios decepcionantes

Em uma história consideravelmente maniqueísta, certamente há algo errado quando a antagonista é mais interessante que a protagonista. Usando como único cliffhanger o desfecho de seu enredo, DILEMA desperta curiosidade suficiente para manter o espectador curioso o suficiente para assistir aos seus dez episódios, porém a série original Netflix é uma verdadeira decepção.

A protagonista da produção é Lisa, uma fundadora de uma startup de biomedicina que passa por problemas financeiros. No limite da sua falência, aparece a antagonista Anne, uma magnata disposta a investir na empresa. Para isso, porém, ela impõe a assinatura de um contrato pelo qual Lisa aceitaria ceder seu marido Sean para passar uma noite com a investidora. É a partir desse dilema que tudo começa.

Cartaz da série “Dilema

Não é difícil perceber a semelhança entre o plot de “Dilema” com o de “Proposta indecente”, de 1993, que inclusive é mencionado de maneira indireta no primeiro episódio, com certa ironia. A monogamia é um verdadeiro red herring da série: não apenas Lisa se vê obrigada a ceder seu marido temporariamente para outra mulher, como os coadjuvantes, nomeadamente Marcos e Angela, também enfrentam essa convenção social. No caso desta, um relacionamento extraconjugal a coloca em dúvida sobre o que quer para si; para aquele, a vontade de um terceiro elemento na relação aumenta a insegurança. Com Angela, surge um subplot clichê, mas funcional (ao contrário do subplot do relacionamento de seu marido Todd com o pai, que é deveras dispensável); com Marcos, a superação do tabu da monogamia é uma mera expectativa – a despeito da cena com sexo a três, o poliamor não chega a ser um tema. Na verdade, o tema está longe de ser esse.

A ideia de Mike Kelley (showrunner da série e do sucesso “Revenge”) é dar a aparência de um tema para, no fundo, tratar de outro. “Dilema” é sobre escolhas: a partir do momento em que Lisa faz uma escolha acerca da proposta, precisa lidar com as consequências, contudo o mesmo acontece com os outros envolvidos no contrato, Anne e Sean, que fizeram escolhas no passado que tiveram força para reverberar por anos. A partir dessas noções, surgem diversas outras, como culpa, responsabilidade, risco e maldade humana.

O backstory das personagens é revelado aos poucos e a conexão é previsível, ainda que não em seus pormenores. Ou seja, é óbvio que há algo no passado que ligou os três de alguma forma, remanescendo a curiosidade justamente sobre essa ligação. Os dois outros núcleos narrativos são distantes de Anne, quase alheios à trama central. Angela (Samantha Marie Ware, uma das melhores em cena) é esposa de Todd (Keith Powers, bem em um papel fácil), melhor amigo de Sean; Marcos (Juan Castano, muito bem), namorado de Lionel (John Clarence Stewart, discreto), é irmão de Lisa. Em princípio, as personagens são arquétipos fáceis de se delinear – ilusão representada em Lisa, segredos habitando Sean, a dubiedade de Anne, a adúltera que Angela se torna e assim por diante. Com o tempo, porém, elas sofrem transformações, como Marcos, que deixa de ser o tímido curioso para ser o atormentado.

São duas as razões que levam à conclusão de que Anne é muito mais interessante do que Lisa, tanto do ponto de vista da personagem quanto do arco dramático. A primeira razão é mais do que evidente: Renée Zellweger é muito melhor atriz que a insossa Jane Levy. Com um cinismo beirando o caricatural, Zellweger parece se divertir com o papel da personagem mais complexa da série. Defendendo piamente uma ideologia que mescla intrepidez com falta de escrúpulos, Anne desfere frases de efeito quase como as flechas que ela estranhamente lança na sala de sua casa: “não posso ser culpada pelo fracasso dos outros”, “o resultado justifica as ações” e “sacrifício é a base do sucesso”. Ela passou por traumas que a tornaram antifrágil o suficiente para, nas aparências, não externalizar sentimentos bons. A despeito de expressões faciais cenicamente questionáveis, a linguagem corporal da atriz esbanja segurança coesa com a personagem, apoiada por um figurino elegantíssimo.

Diversamente, Levy é uma protagonista insossa e unidimensional, com uma trajetória nada empolgante – o save the cat do primeiro episódio é uma amostra pequena de seu perfil piegas. É verdade que seu principal parceiro de cena, Blake Jenner, colabora para tornar a dupla principal quase insuportável, pois Jenner é fraquíssimo, porém a falta de camadas em Lisa é incômoda. Bonita, inteligente, altruísta, sofredora: como ela poderia ser mais inverossímil? Anne a ensina a ser estrategista, mas ela demora muito a jogar o jogo da vilã (além de precisar de muita ajuda para isso).

Exceto por Phillip Noyce, que dirige dois episódios, cada um tem uma direção distinta, o que amplia a irregularidade dos capítulos (também há variação no roteiro, salvo por Kelley e Brenna Kouf, que assinam todos) – há uma queda de nível, crescendo apenas nos três finais. Do terceiro ao sétimo, sobram metáforas tolas (luta de esgrima, jogo de xadrez, uso de cacos de um jarro como moldura etc.) e sequências nonsense (a encenação do quarto episódio é patética; as alucinações do sexto, mal elaboradas). Quando a série precisa de efeitos visuais – felizmente são poucos os momentos -, eles são amadores. Sutileza também não é o forte da produção, como ao tocar “What a difference a day makes” (versão de Dinah Washington) – ao menos a música é ótima – e ao dar um novo penteado a Lisa.

Nem tudo é ruim em “Dilema”. Sem exagerar em cliffhangers ao final de cada capítulo (como fazem as séries que querem o espectador preso em razão do que acontece no fim de cada um, dando uma solução fácil nos minutos iniciais do episódio), a narrativa não deixa pontas soltas e tem um plot twist capaz de justificar o enredo como um todo. A maioria das personagens é consistente e verossímil e é possível se divertir quase tanto quanto Renée Zellweger. Ao menos até perceber que, se não fosse por ela, a série não seria nada atrativa.

Em tempo: seria mais interessante investir em questionar a monogamia, com algo similar à também original Netflix “Sex education” (cuja crítica pode ser lida clicando aqui). Ao menos haveria mais ousadia e menos fórmulas prontas.

Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.