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“DOCE ARGUMENTO” – Eficiente na simplicidade

Os traços iniciais de DOCE ARGUMENTO parecem constituir um filme bobo e superficial, que simplesmente reproduziria os padrões de filmes cômicos high school norte-americanos. O julgamento precipitado do título, do cartaz ou dos primeiros momentos da narrativa ofusca as virtudes da produção, que podem não ser suficientes para criar algo memorável, porém, ao menos, entregam uma diversão simples e eficiente. Na trama, os jovens Lona e Bennett são membros do clube de debate de sua escola e vivem em pé de guerra por conta de sua rivalidade; a relação entre eles sofre uma guinada quando precisam trabalhar juntos para conseguirem entrar na faculdade de seus sonhos.

A trama central acompanha a rotina dos protagonistas na preparação para os debates, os eventos em si e o que eles significam para os jovens. O tema é apresentado e filmado pelo diretor Ben Shelton de modo oscilante, tendo seus acertos e suas deficiências. O cineasta confere agilidade e dinâmica à narrativa através de uma linguagem de fácil comunicação com o público juvenil: cortes rápidos e planos variados esteticamente (a projeção de textos ao fundo do rosto dos personagens e planos-detalhe sobre os lábios e mãos dos debatedores); ao mesmo tempo, peca pela repetição de recursos que apenas triunfariam com uso moderado: o excesso de diálogos expositivos (a partir da introdução passageira de dois irmãos gêmeos para explicar o funcionamento dos debates) e a utilização sistemática da montagem em paralelo para acelerar acontecimentos que levariam muito tempo (antes dos cinquenta minutos de projeção, o recurso já havia sido utilizado quatro vezes).

Uma direção oscilante influencia no tratamento igualmente desequilibrado do tema principal. A premissa é mostrar a inteligência e a seriedade com que Lona e Bennett levam suas vidas e atividades, tendo como símbolo suas habilidades em campeonatos de debate (especialmente através da preparação metódica para as disputas). Entretanto, o que se apresenta é uma visão deturpada das discussões, já que não se vê capacidade argumentativa nem qualidade de oratória, mas sim uma fala absurdamente veloz para confundir e atrapalhar os adversários. Excetuando-se esse ponto, a questão do compromisso com os estudos oferece uma problemática interessante e bem trabalhada: a cobrança exagerada dos dois jovens pelo sucesso acadêmico e por vitórias em tudo em que eles participam, inclusive deixando de desfrutar a diversão da vida.

A obsessão quase robótica dos protagonistas pelos estudos também é retratada pelas atuações carismáticas de Sami Gayle e Jacob Latimore. A atriz interpreta Lona como uma aluna dedicada ao extremo, metódica (a ponto de ter na parede do quarto um cronograma para estudar e de não acreditar em sorte) e pouco afeita a hobbies e atividades descompromissadas; o ator vive Bennett como um aluno igualmente esforçado e sério nos estudos, de tal modo que se define como alguém com dificuldades para relações sociais. Dois outros elementos alheios aos atores contribuem para seus desempenhos, além da sintonia fina de suas interações: seus figurinos, sempre sóbrios e de cores frias, idealizados por Kairo Courtus; e os planos visualmente idênticos para mostrar suas rotinas e as semelhanças de personalidades e escolhas.

A proximidade entre eles aparece nos subtemas trabalhados ao longo da projeção: ambos precisam lidar com as incertezas do futuro (a entrada na universidade certa, por exemplo), as exigências de sucesso permanente e as complexas relações com as mães. A montagem de Kayla Emter complementa ainda mais o paralelismo de suas vidas, utilizando raccords sonoros que interligam sequências a partir de frases muito semelhantes ditas por um núcleo e respondidas pelo outro.

Esses novos temas estão apoiados pelo elenco coadjuvante, detentor de seu próprio carisma e função dramática – é difícil não simpatizar com três personagens femininas, em especial, que fazem parte das trajetórias dos protagonistas. A mãe de Lona (Amy, vivida por Christina Hendricks) é o arquétipo oposto da filha: impulsiva, relaxada e disposta a aproveitar a vida sem pudores, ela tenta cativar Lona a ser menos séria; a mãe de Bennett (Julia, vivida por Uzo Aduba) é uma próspera senadora que cobra de seu filho sempre o melhor, acreditando ser o ideal a fazer para honrar a inteligência dele; e a orientadora da escola (Kathy, vivida por Helen Hunt) trata seus alunos de forma leve e entusiasmada, determinada a incentivá-los a se divertir e a não se cobrarem tanto (até usando piadas e sugestões pouco ortodoxas). A caracterização das personagens coadjuvantes é reforçada pelo design de produção de John Sanders. Os cenários evocam suas personalidades: a simplicidade de Amy por uma casa sem luxos e de cômodos integrados, a prosperidade econômica de Julia por uma casa ampla e moderna, além do caráter lúdico de Kathy por uma sala de cores vivas e repleta de doces.

À medida que “Doce argumento” se desenvolve, é possível compreender e se identificar com as jornadas de Lona e Bennett: de suas rivalidades, originadas das rivalidades das mães, até a compreensão de que ganhariam muito sendo menos sérios e perfeccionistas. Não é perfeito, tem suas oscilações e falhas nos recursos narrativos, porém convence como história romântica de amadurecimento.

Um resultado de todos os filmes que já viu.