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“EU NÃO SOU UM HOMEM FÁCIL” – Problematizando papéis sociais e de gênero

EU NÃO SOU UM HOMEM FÁCIL imagina como seria uma sociedade matriarcal em que os papéis e as expectativas sociais de homens e mulheres estariam invertidos. A partir dessa premissa inicial, o filme debate como interferências e pressões externas das mais diversas naturezas atuam sobre as mulheres – num processo que cria e reproduz clichês, estereótipos e cobranças sociais. Tudo isso ocorre a partir da história de Damien, um publicitário mulherengo e machista, quando ele choca seu rosto num poste de luz e acorda num mundo aparentemente igual ao dele, porém com uma diferença significativa: são as mulheres que detém o poder sobre os homens.

Praticamente todo o primeiro ato tem a função de mostrar o espanto do protagonista diante de tantas mudanças e as novas relações que estabelece com indivíduos, de alguma forma, já conhecidos por ele. A enumeração da lista de situações ou comportamentos alterados nesse novo mundo é longa: mulheres estão em posições de comando (em empresas ou mesmo em suas famílias), assumem o controle das relações sexuais, praticam assédio sobre os homens até mesmo nas ruas, possuem gostos e hábitos supostamente masculinos (assistir a rúgbi, por exemplo) e têm uma personalidade mais dura e fechada em termos de sentimentos; enquanto os homens ocupam lugares periféricos e dependentes dessas lideranças femininas, estão submissos no momento do sexo, precisam se organizar para lutar contra o assédio sofrido, realizam atividades supostamente femininas (como as tarefas domésticas) e têm uma postura mais sentimentalista muito próxima das lágrimas constantes. Em cada um dos instantes citados, o humor não está ligado a piadas de risadas fáceis e explícitas, está ligado a comentários provocadores que promovem reflexões contínuas no público.

Tais questões não se desenvolvem de maneira a justificar o predomínio das mulheres nem sua colocação num lugar de opressão. A inversão de papéis construída pelo roteiro é feita para demonstrar o efeito danoso de diversos tipos de violência a todos aqueles que não as vivenciam; a proposta é projetar como seria para os homens sentir na pele uma condição de inferioridade colocada por exigências e estereótipos sociais. Nessa linha, é interessante analisar como o termo “masculismo” usado no filme se relaciona ao feminismo cada vez mais em voga em discussões públicas atualmente para pensar como as relações sociais poderiam ser melhoradas – uma relação que indica a necessidade de encontrar um equilíbrio entre direitos, oportunidades e tratamentos sem imposições de indivíduos sobre outros nem qualquer tipo de dominância.

O caminho trilhado pela obra, após a apresentação dessas contradições entre supostas “identidades” masculina e feminina, enquadra-se na estrutura da comédia romântica quando Damien inicia um relacionamento com a escritora Alexandra. As convenções, conflitos e desenvolvimentos do subgênero estão lá, porém dispostos com uma roupagem bem particular graças às alternâncias entre as condutas dos dois personagens. São curiosas as brincadeiras feitas com o clichê do “sexo frágil” atribuídas a Damien; há o arco típico do casal que tem dificuldades para conviver, mas, aos poucos, aprende a aceitar as particularidades de cada um apesar da existência de conflitos; e também há a caracterização de Alexandra como uma mulher que, aparentemente, trata os homens como meros objetos sexuais e se relacionava com muitos deles (não sendo chamada, contudo, por termos pejorativos, mas tratada como algo próximo ao equivalente do mulherengo).

Em relação ao elenco, nenhuma atuação se sobressai. Os atores com maior tempo de tela entregam desempenhos muito equilibrados e coesos para que todos possuam seus momentos de brilho, além de conseguirem se inserir sem maiores dificuldades na proposta da produção. Vincent Elbaz faz o protagonista Damien ter segurança absoluta sobre os diferentes percursos emocionais seguidos por seu personagem: o egocentrismo de um sujeito que parece se adorar e se surpreende quando não vê o mesmo das pessoas por quem se interessa, transformado em surpresa e exaltação nervosa face às mudanças em seu papel social; Marie-Sophie Ferdane tem mais possibilidades de desenvolvimento de sua personagem Alexandra quando percorremos esse mundo matriarcal, convencendo como uma mulher mais sisuda de comportamentos comedidos e disciplinados que se abre, gradativamente, a uma relação amorosa; já Pierre Bénézit interpreta o melhor amigo de Damien, Christophe, e é responsável por alguns dos momentos mais engraçados da projeção ao acrescentar à sua performance pequenos gestos delicados que indicam uma personalidade mais frágil e instável emocionalmente.

A maior ressalva a ser feita fica por conta da direção de Eléonore Porriat, pouco inventiva e tão discreta que desperdiça oportunidades de criar humor ou reflexões também a partir do uso de movimentos de câmera ou de composições de planos mais expressivos. Quando a cineasta constrói um requinte visual mais significativo, acompanhamos movimentos de câmera sutis, porém de significados importantes para a trama (por exemplo, o registro de uma mulher correndo na rua sem camisa como algo corriqueiro e de um filme exibido na TV de Damien que mostra as nádegas de um ator desnecessariamente). O mesmo não pode ser dito acerca do trabalho de figurino: o humor extraído de combinações incomuns de roupas usadas tanto por homens como por mulheres é mais um recurso para o desenvolvimento do tema central da obra.

Eu não sou um homem fácil” pode não provocar gargalhadas nem sequências de humor explícitas, porém permite uma série de pensamentos de relevância social. Reflexões constantes que nos fazem questionar os absurdos de uma sociedade que não consegue promover relações igualitárias entre homens e mulheres.

Um resultado de todos os filmes que já viu.