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“HAPPY HOUR: VERDADES E CONSEQUÊNCIAS” – Sua perspectiva se torna um defeito

HAPPY HOUR: VERDADES E CONSEQUÊNCIAS tem um ponto de partida muito semelhante ao recente “Um amor inesperado” (clique aqui para ler a nossa crítica): um casal passa por turbulências, após a viagem do filho, diante da possibilidade de passarem um tempo a sós. A similaridade logo se esgota, devido a um desenvolvimento diferente e inferior do filme de Eduardo Albergaria, que se perde em subtramas desnecessárias e na superficialidade de seu tema central.

A trama parte do envolvimento de Horácio em um acidente que captura um inusitado criminoso vestido como o Homem-Aranha. Após o incidente, ele decide confessar à sua esposa Vera que deseja ter relações com outras pessoas, embora ainda queira continuar o casamento. Confusa com a revelação e envolvida em momento conturbado na sua vida política, ela se vê indecisa quanto ao que fazer para preservar o matrimônio.

A sinopse não indica imediatamente como a narrativa se sustenta na tentativa de mostrar os caminhos absurdos que a vida pode tomar, passeando entre o risível e o dramático, nem que essa perspectiva mal executada se torna a principal razão dos problemas narrativos e estéticos.

O absurdo contamina a diegese através de subtramas nada ou pouco relevantes para as divergências amorosas e sexuais do casal, conflito basilar do filme. A popularidade adquirida por Horácio quando um bandido vestido de Homem-Aranha cai em seu carro, além dos bastidores políticos da candidatura de Vera à prefeitura, são desvios daquilo que o público esperava acompanhar: os motivos, desentendimentos e consequências advindas da decisão do marido de avisar à esposa seu desejo de se relacionar com outras mulheres. Nenhuma dessas duas subtramas possui um desenvolvimento satisfatório, uma vez que elas apresentam sequências apressadamente mal resolvidas: a origem e os desdobramentos da fama incomum de Horácio são atirados a esmo; o impulso por outros relacionamentos é sugerido apenas pela provocação de uma aluna de Horácio; o suposto desgaste do casamento é anunciado sem que haja qualquer cena para mostrar o fato; a união política de Vera com um deputado rival cai de paraquedas sem justificativas…

Problemas análogos estão presentes no tom diversificado da narrativa, precariamente composto pela fusão entre comédia e drama. Não funcionam o humor nonsense, ao desperdiçar as oportunidades de explorar as ocasiões insólitas vividas pelos personagens, nem o humor de situação, ao falhar na criação de piadas a partir das transformações do cotidiano do casal. O drama tem resultados melhores, entretanto é construído em poucos momentos isolados com o auxílio do silêncio, do plano ligeiramente mais longo do que o necessário e da câmera estática de Eduardo Albergaria (como se vê nas sequências em que Horário e Vera conversam no carro, após a partida do filho, e fazem uma refeição em silêncio absoluto). A trilha sonora instrumental também compromete os estilos, já que cria um humor infantil através de notas dinâmicas ou um suspense bobo e cartunesco no arco político de Vera através de notas pausadas (algo reforçado pelas atuações forçadamente conspiratórias de Chico Diaz e Marcos Winter).

Apoiar-se em um roteiro sem foco é um ponto decisivo contra o desenvolvimento dos personagens. Os protagonistas nem sempre possuem um bom material nas sequências em que interagem (repetindo-se as sequências que transmitem os mesmos elementos, tendo Horácio que se esforçar para não ceder à tentação e Vera que se dedicar a desfazer a ideia da cabeça e do coração do marido). Além disso, seu arco em conjunto não rende tantos momentos cômicos ou dramáticos inspirados porque eles passam mais tempo em suas próprias tramas desconexas: Pablo Echarri interpreta Horácio muito mais como argentino charmoso, que desperta o interesse de suas alunas universitárias e vive cercado pela fama decorrente da prisão acidental de um criminoso (arco absolutamente desnecessário para o filme); e Letícia Sabatella vive Vera como uma mulher passiva diante das armações eleitorais em que é colocada (arco que leva os conflitos matrimoniais a direções menos interessantes).

Outras indicações de como o absurdo não é bem trabalhado são os problemas técnicos na direção e na montagem. O cineasta insere uma constante narração em voice over de Horácio, incapaz de ter qualquer função narrativa relevante e que se disfarça atrás de divagações filosóficas para esconder sua incoerência e pobreza intelectual; além de falhar nos enquadramentos de algumas cenas enquanto a câmera se movimentava, deixando elementos cenográficos ou personagens fora de foco e construindo planos que cortavam o rosto dos protagonistas em momentos chave. Já a montagem utiliza, indiscriminadamente, jump cuts para saltar rapidamente os movimentos dos personagens de uma cena a outra, porém sem função expressiva e responsável pela quebra do eixo da câmera.

Happy hour: verdades e consequências” possui poucos bons momentos, as já referidas no interior de um veículo e na mesa da refeição. Elas traduzem as possibilidades dramáticas desperdiçadas por um filme que insinua ser uma história sobre um casal, mas perde tempo com armações políticas, um criminoso incomum e uma narração voice over supostamente complexa. É o desfecho de uma obra interessada em trabalhar o absurdo que acaba, no fim das contas, acumulando erros absurdos.

Um resultado de todos os filmes que já viu.