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“ÍCARO” – Nos bastidores da verdade

De acordo com o senso comum dos espectadores de cinema, os documentários estariam mais próximos do registro da realidade do que as ficções. Porém, se observarmos atenciosamente a narrativa documental, veremos também a utilização de movimentos de câmera, montagem e trilha sonora com o objetivo de transmitir algum ponto de vista. Dessa maneira, a verdade buscada se torna um recorte do real, um traço subjetivo do que nos cerca. Com tais considerações, é possível assistir ao filme ÍCARO e compreender como seu tema e sua abordagem são instigantes, também em virtude do caminho que escolhe trilhar.

Inicialmente, a obra acompanha a trajetória do diretor Bryan Fogel enquanto tenta provar como o sistema antidoping no esporte é falho. Para isso, ele decide participar de um desafio amador de ciclismo, após ter injetado substâncias proibidas, e mostrar as brechas para passar pelos exames impunemente. Nos primeiros trinta minutos de projeção, o documentário assume um estilo participativo porque o cineasta é o protagonista e a câmera o segue em sua rotina especial: seus treinamentos físicos, suas conversas com o cientista russo Grigory Rodchenkov – que o ajudou nesse processo – e a aplicação das injeções. No início, a narrativa utiliza a câmera na mão e enquadramentos muito fechados em torno de Bryan Fogel para nos inserir muito próximos aos acontecimentos e aos personagens – algo também importante para criar essa sensação de realismo junto ao público. Esse enfoque se revela interessante ao exibir os profundos esforços e riscos a que os atletas estão submetidos por fazer uso de tais substâncias, além de demonstrar como o sistema antidoping possui inúmeras falhas para cumprir suas funções.

Por si só, esse tema já renderia ao documentário muitos elogios. Entretanto, o diretor se depara com uma nova história em suas mãos a partir do convívio que estabelece com Grigory: descobre que, em diversas competições esportivas, a Rússia montou um programa de doping para favorecer seus atletas e, assim, obter resultados positivos e muitas medalhas. Essa acusação ainda poderia ser desenvolvida em função das declarações do cientista e das provas acumuladas por ele – duas fontes que ajudariam a comprovar como esse esquema contava com a participação direta do governo russo, envolvendo a antiga KGB, o ministério do Esporte e o próprio presidente Vladimir Putin. Após essa descoberta, o documentário passa por uma transformação e assume um viés investigativo sobre essa questão mais ampla.

O desenvolvimento desse novo tema é realizado com a entrada de novas figuras importantes da política e do esporte através de imagens de arquivo e de entrevistas. São muitos os órgãos de diferentes esferas (nacionais e internacionais) a serem apresentados, um desafio que o filme consegue dar conta devido a um eficiente trabalho de montagem. O documentário alterna entre personalidades governamentais da Rússia, profissionais da agência nacional antidoping russa e outros da Wada (agência internacional de combate ao doping) com um fluidez que facilita a compreensão dos eventos retratados e de seus impactos. Além disso, a narrativa se enriquece ao trazer as fontes de arquivo e os relatos orais dos personagens envolvidos, montando um mosaico complexo que ultrapassa a dimensão esportiva.

As consequências desse “doping patrocinado” não são mostradas apenas dentro dos esportes, analisando as campanhas da Rússia em Olimpíadas de verão e de inverno, mas também em outras áreas da sociedade. Conseguindo construir um percurso muito antigo para esse sistema (sendo, inclusive, muito difícil determinar sua origem), o filme apresenta as implicações políticas desse sucesso artificial do país nas competições esportivas. No terceiro ato, vemos mais detalhadamente como o governo Putin, por exemplo, poderia utilizar a popularidade obtida nos esportes para legitimar intervenções militares na Ucrânia. Algumas pessoas podem criticar esse posicionamento político da obra (crítica, por vezes, coerente nas passagens mais vilanescas atribuídas à Rússia), entretanto cobrar alguma neutralidade sobre o assunto é muito complicado, além de incompatível com a estrutura documental escolhida.

Nessa segunda abordagem, o estilo cinematográfico também passa por modificações. Percebe-se mais claramente a intervenção do diretor na composição dos planos e das sequências: o recurso da câmera na mão é substituído por câmeras que seguem os personagens por trás ou que os enquadram de longe (como se estivessem se escondendo); a trilha sonora se torna presente e com acordes operísticos que criam uma sensação de urgência e perigo constante; e a montagem se torna acelerada, dando uma dinâmica maior a momentos em que alguma revelação seria feita. Tais recursos utilizados moderadamente seriam eficientes para a construção de uma atmosfera de suspense (todo o arco envolvendo os riscos à vida de Grigory é bem sucedido por conta dessas escolhas), contudo sua recorrência exagerada dá a sensação de que o cineasta quer mastigar todas as informações para o público e manipular suas emoções desnecessariamente.

Por mais que “Ícaro” deslize em alguns aspectos técnicos, a força de sua mensagem se destaca. A forma como ela foi encontrada também faz com que o documentário tenha seu nível elevado e, ao ser visto, se torne uma surpresa ao espectador que mergulhe em sua narrativa e seja conduzido pelos diferentes caminhos que seguiu. Deixar ser guiado pela mão habilidosa de Bryan Fogel possibilita ter acesso a um tema de uma importância muito atual e a um prazer cinematográfico todo próprio.

Um resultado de todos os filmes que já viu.