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“LA CASA DE PAPEL” [3ª PARTE] – A resistência começou

LA CASA DE PAPEL se afirmou como um sucesso de público no seu lançamento em 2017 pela Netflix, criando uma história pop com referências a “Cães de aluguel” e “O plano perfeito“, personagens carismáticos e uma trama rocambolesca. A grande aprovação popular, entretanto, não apaga os problemas narrativos provocados pelo excessivo número de episódios (na primeira parte), tom novelesco e pelas facilitações inverossímeis do roteiro. Já com a estreia da terceira parte em 2019, o nível da série se eleva um pouco, conseguindo agregar qualidades que, mesmo não eliminando as tradicionais falhas, torna a experiência razoavelmente prazerosa.

Cartaz da terceira parte de “La casa de papel”

Tendo completado a narrativa sobre o assalto à Casa da Moeda, a terceira parte começa mostrando as consequências do crime para os ladrões: dividindo-se nos casais Professor e Lisboa, Tóquio e Rio, Denver e Estocolmo e Nairóbi e Helsinque, eles aproveitam as festas e as belas paisagens na América ou no Sudeste Asiático, escondidos para não serem capturados pela polícia. Três anos depois, quando Rio e Tóquio se separam, o jovem é pego pelas autoridades tentando se comunicar com a ex-namorada e desaparece do mapa. Para reencontrar e resgatar o amado, Tóquio convence o Professor a reunir o grupo para essa tarefa. A ideia, então, começa com um novo plano de roubo, dessa vez para o Banco Nacional da Espanha.

A série, ainda que se inicie com um estilo diferente do subgênero heist e sequências filmadas em locações diferentes do usual, logo retorna à sua identidade básica e aos problemas costumeiros. O principal é o conjunto de conveniências criadas pelo roteiro para criar conflitos ou mover a trama de maneiras pouco críveis: a separação entre Tóquio e Rio é feita bruscamente por uma decisão repentina da mulher de experimentar novidades em sua vida; a prisão de Rio acontece por conta de um falso combinado entre ele e Tóquio de se comunicarem em determinado dia; os erros cometidos pelo Professor que colocam ele próprio e Lisboa sob risco de serem descobertos são tão infantis que não podem ser admitidos; grandes aparelhos necessários para o crime são colocados dentro do banco facilmente. Em relação ao texto, ainda existem lacunas para a apresentação dos novos personagens (Bogotá e Marselha custam a serem introduzidos a contento) e há um uso simplista de flashbacks, empregados para justificar algo a ser mostrado posteriormente.

Uma estratégia para conter a frequência demasiada das facilitações do roteiro é a ligeira alteração no tom da narrativa. As duas primeiras partes apostam em uma dose maior de realismo, tentando justificar cada passo dos assaltantes e dos policiais – estilo que contradiz os absurdos no encadeamento dos fatos ao longo dos episódios. Nesse novo ano, predomina uma atmosfera fantasiosa presente em muitos momentos e comentada pelos personagens que combina com a elevação dos riscos do plano: por exemplo, as artimanhas para criar o caos e distrair as autoridades e as conversas entre o Professor e Berlim no passando preparando o roubo simbolizam o tom fantástico; em paralelo a isso, os ladrões precisam enfrentar maiores dificuldades para roubar o Banco Nacional, superando os seguranças, o governador da instituição e as ações mais enérgicas e heterodoxas da inspetora Alice e do coronel Tamayo.   

Caso o tom fantasioso fosse preservado, o arco dramático dos personagens poderia também ter sido favorecido. Porém, o elemento novelesco reaparece para embalar as interações e as trajetórias dos criminosos, deixando-os novamente como meras figuras unidimensionais restritas a algumas características: Rio é o jovem apaixonado, Tóquio é a impulsiva, Helsinque é o grandão intimidador de grande coração, Professor é o sujeito metódico que controla todos os seus passos. Nessa terceira parte, os novos aspectos adicionados aos personagens continuam servindo apenas para humanizá-los, não conseguindo desenvolvê-los dentro de uma jornada dramática (Denver casado com Estocolmo e criando um filho, Helsinque apaixonado e não correspondido por Palermo, Rio e Tóquio se desentendendo quanto ao futuro do relacionamento…).

Comparando-se as três partes, a última também tem o mérito de aprofundar algo que antes era trabalhado apenas superficialmente: o engajamento do bando de assaltantes na luta contra o sistema político e financeiro que beneficia os poderosos, somado a comentários sociais contrários a preconceitos. Essa questão está mais evidente do que nunca, presente no uso recorrente da música “Bella Ciao“; no esforço de resgatar Rio das torturas que sofre em um confinamento ilegal; de combater declarações machistas feitos por homens a Nairóbi; e de buscar o apoio da população para o crime atribuído como uma atitude típica de Robin Hood. O roupão vermelho e a máscara de Salvador Dalí se tornam ainda mais expressivos do bando e de marcas visuais encontradas também no povo que assiste às operações em frente ao banco apoiando o grupo. A narrativa não só avança na questão da resistência aos setores políticos e econômicos dominantes, como também se associa ao momento contemporâneo de afirmação social de personagens femininas fortes.

A inconstância entre as melhorias narrativas e a repetição de deficiências se traduz também na alternância entre boas sacadas visuais e na redundância da linguagem. Como pontos positivos, há boas transições entre as linhas temporais da conversa entre Professor, Berlim e Palermo planejando o assalto e o fornecimento das informações para o resto do grupo; e o refinamento da montagem paralela que cria tensão entre as ações dos ladrões e as reações dos policiais. Como pontos negativos, há narrações que explicam o que já está sendo mostrado pelas imagens (o plano explicado pelo Professor enquanto suas etapas se desenrolam) e inserções de planos previsíveis ou de metáforas pobres (como a queda de um coco simbolizando a aparição de uma ideia).

Conseguindo melhorar o ritmo pela redução da quantidade de episódios, “La casa de papel” conclui a terceira parte de forma mais eficiente do que nas partes anteriores. Qualidade maior que se revela no que promete ser a direção a ser seguida pela quarta parte: a resistência ao sistema chegando a níveis ainda maiores com grandes riscos tanto para os ladrões quanto para as autoridades. Afinal, o assalto agora se converteu em um confronto social.

Um resultado de todos os filmes que já viu.