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“LEAVING NEVERLAND” – Não termina em si mesmo

Como continuar admirando a obra de um artista quando se revelam escândalos ou atitudes condenáveis, desagradáveis e criminosas de seu realizador? Como lidar com sentimentos contraditórios herdados de um trauma tão duro? Como lutar pelo direito à fala quando reprovações vêm de tantos lados? Questionamentos assim emergem do documentário LEAVING NEVERLAND, produzido pela HBO, acerca da passagem mais controversa da vida pessoal de Michael Jackson: as acusações de abusos sexuais infantis feitos pelo músico a partir da década de 1980.

Cartaz de “Leaving Neverland”

As quatro horas de duração do filme se dividem em duas partes para apresentar os dolorosos relatos de Wade Robson e James Safechuck, atualmente adultos, recontando os abusos sofridos em suas infâncias. A primeira enfoca, principalmente, a relação entre as duas crianças com Michael Jackson, quando muito novos se aproximaram do cantor e conviveram com ele por muitos anos – vivenciando momentos felizes mas também os sofrimentos causados pela pedofilia. A segunda narra os processos judiciais realizados por outros dois meninos também molestados, enquanto as consequências daquelas relações sexuais para Wade e James são mostradas a longo prazo.

Os documentários também possuem uma estrutura dramática, algo não exclusivo apenas nas ficções. Esse filme em questão molda a primeira parte criando um paralelo entre as experiências dos dois homens, através da alternância de situações semelhantes estabelecida pela montagem. Ambos tinham habilidades artísticas precoces (Wade era um excelente dançarino e James fazia comerciais e também dançava), que os fizeram conhecer Michael e se deslumbrar com a possibilidade de viver próximo ao astro (eles se sentiam especiais por terem sido escolhidos pelo cantor para conviverem com ele, cada um em sua época, e por serem tratados como amigos) e também sofrerem os abusos como se fossem algo inocente e lúdico (as brincadeiras e demonstrações de carinho emocional intensificavam as relações sexuais e levavam à pornografia e às bebidas). Além das cenas brutais que as duas crianças passaram (antes mesmo de completarem quatorze anos), são retratadas as consequências dessas relações nada saudável para as famílias, como separações e doenças.

A segunda parte avança ainda mais no tempo para trabalhar as repercussões dos julgamentos e das absolvições de Michael Jackson e do envelhecimento de Wade e James. Nas duas últimas horas, muitos eventos de suas vidas são mostrados, desde o afastamento gradual em relação ao artista, o desenvolvimento de suas carreiras profissionais, a formação de suas respectivas famílias, suas participações nos julgamentos, os sentimentos após a morte de Michael, as sequelas emocionais do segredo ainda não revelado, as dificuldades de falar sobre os abusos e as reações da sociedade ao assunto. São tantos elementos a serem trabalhados que a montagem nem sempre consegue encadear todo o material de arquivo e as entrevistas – por conta disso, são alguns os momentos em que as duas histórias estão desbalanceadas em termos de tempo de tela e a cronologia se torna confusa.

Se, por um lado, os depoimentos são fortes e emocionantes (inclusive com descrições muito detalhadas dos atos sexuais), o mesmo não pode ser dito da instável linguagem cinematográfica. A montagem, em geral, transita bem entre momentos de vida semelhantes entre os dois rapazes e utiliza com precisão as imagens de arquivo para colocar o espectador naqueles períodos; contudo, ela falha, de forma ampla, em administrar os dois relatos (fica a sensação de que passamos muito tempo acompanhando um deles e marginalizando o outro, além de perdermos detalhes de suas trajetórias). Igualmente problemática é a direção de Dan Reed, que falha no enquadramento dos entrevistados com planos pouco expressivos (a recorrente posição lateral da câmera, por exemplo) e nas transições de cenas com simples tomadas aéreas injustificáveis.

Ainda que tenha problemas estéticos, a complexidade emocional e psicológica de Wade e James não é enfraquecida. Eles tinham uma sensibilidade artística em desenvolvimento quando crianças, sentiam uma solidão decorrente da idade ou da composição familiar, se sentiram especiais graças ao afeto e à atenção dispensada a eles por Michael e foram molestados sem ter dimensão daqueles atos – por isso, carregam sentimentos tão contraditórios que os fazem ainda admirar e guardar lembranças positivas de alguém que lhes causou dores e violou seus corpos (por exemplo, sofrem ao ouvir sua voz ou olhar para objetos da época). O próprio astro da música também pode ser visto como um homem atormentado, já que tem uma visão deturpada de como expressar amor e manter relações sociais.

As perguntas levantadas no primeiro parágrafo não possuem uma resposta simples. Assim como no passado em que denúncias contra Michael Jackson foram acusadas de somente buscarem fama e dinheiro, “Living Nerveland” pode sofrer críticas análogas. Seria, entretanto, um desperdício de potencial relegar o documentário ao lugar insignificante do oportunismo barato. Nem mesmo as falhas contidas na narrativa cinematográfica são argumentos para simplesmente diminuir o filme e ignorar contribuições que ele pode passar. Demonstrar como são complexas as relações entre obra e autor e a própria natureza humana (pessoas podem ser simultaneamente afetuosas, doentes e problemáticas) e como denúncias de abusos sexuais são extremamente necessárias são pontos positivos que não se encerram na duração do documentário. Mesmo sendo quatro horas de um estilo visual abaixo da força do tema.

Um resultado de todos os filmes que já viu.