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“MIB: HOMENS DE PRETO 2” – Nada marcante

* Clique aqui para ler a nossa crítica do primeiro filme, de 1997.

Continuações, muitas vezes, escolhem um caminho arriscado para seguir com uma história bem-sucedida junto ao público: reeditar elementos, gags e situações já vistos no primeiro filme para criar uma relação de familiaridade e prazer cinematográfico. O risco de uma escolha assim é justamente o que aconteceu com MIB: HOMENS DE PRETO 2, quando optou por uma aventura que depende consideravelmente de aspectos clássicos da história e torna a narrativa repetitiva, cansativa, pouco inspirada e carente de algo novo a acrescentar.

A nova missão dos homens de preto envolve novamente a proteção da Terra de uma raça alienígena decidida a destruir o planeta. A ameaça é provocada por Serleena, uma Kylothian cruel monstruosa que está disfarçada como uma modelo terráquea. Agente J precisa então da ajuda de seu antigo parceiro K, que teve sua memória apagada e passou a trabalhar nos Correios. J deve reverter o processo para contar com um aliado na luta contra esse novo perigo.

Ao que tudo indicava, o filme poderia seguir uma nova e interessante direção em função do primeiro ato. Com K aposentado, J passou a ser o agente mais experiente e responsável que precisa lidar com novos e muitos parceiros nem sempre aptos para o trabalho (existe uma piada recorrente em relação ao fato de que ele frequentemente apaga as memórias dos agentes que trabalham com ele). Caso esse arco fosse mantido, a trama e o próprio personagem evoluiriam para outras camadas e possibilidades, como a própria narrativa sugere rapidamente: o amadurecimento de J e sua entrega ininterrupta ao trabalho, as dinâmicas diferentes com outros personagens que assumiriam o lugar de novato inexperiente e as relações com os alienígenas residentes na Terra. Outro benefício seria a oportunidade de dar vazão a diferentes piadas, como chega a acontecer esporadicamente: por exemplo, a sequência passada em uma estação de trem com um verme gigantesco e o destaque maior dado ao cachorro Frank, que pode desenvolver ainda mais seu lado falastrão e cantor enquanto é, temporariamente, parceiro de J.

Entretanto, o desenvolvimento a partir do primeiro ato leva o espectador a momentos e conflitos praticamente reciclados do filme anterior. Novamente existe uma ameaça alienígena interessada na posse de um artefato que colocaria em risco toda a vida do planeta; a repetição de piadas envolvendo personagens nas mesmas condições já vistas anteriormente (Jeebs tendo sua cabeça arrancada continuamente até que cresça novamente, os alienígenas em formato de verme que procura desfrutar a vida e relaxar…); e o retorno de K para trazer de volta a mesma dinâmica com J sem qualquer nuance ou mínima alteração, baseada na austeridade do primeiro contra a espontaneidade do segundo. Em relação às piadas, portanto, há uma queda devido ao reaproveitamento de gags e de situações já conhecidas que não surpreendem ninguém.

A rota trilhada pela produção após o reaparecimento de K, inesperadamente, também compromete Will Smith (J) e Tommy Lee Jones (K). Antes, a dinâmica entre os dois atores era um dos pontos fortes da trama, sabendo como criar humor a partir das diferenças de personalidade dos dois sujeitos e da inusitada relação buddy cop que se forma entre eles. No segundo filme, o resultado não é o mesmo por problemas do roteiro, especialmente no tratamento dado a J, que inicia mais maduro e hábil nas missões que participa e depois volta a ter um papel mais cômico e atrapalhado somente para tentar emular as antigas interações entre os personagens. Por sua vez, K até protagoniza alguns boas piadas em sua pacata vida de trabalhador nos correios, mas retorna ao arquétipo de durão sem nenhuma nova camada (o que aconteceu à sua esposa, uma das razões para sua aposentadoria?). 

Nem a aventura nem a ficção científica apresentam uma regularidade ao longo da narrativa. Quando o conflito se desenrola no segundo ato, aparecem problemas de roteiro e na direção de Barry Sonnenfeld: a mitologia em torno da tal “luz” que precisa ser protegida da vilã nunca é devidamente explicada, muito menos resolvida a contento (a revelação final surge abruptamente e deslocada do que já havia sido mostrado até então); e o ritmo do segundo ato compromete o perigo que Kylothian deveria representar e o próprio envolvimento do público naqueles acontecimentos (quando K volta à ativa e sai na jornada, ao lado de J, para encontrar a luz e se recordar do que sabe em relação ao mistério, a aventura perde a agilidade tão marcante da história). Além disso, o aspecto de ficção garantido pelos efeitos visuais possui oscilações flagrantes e uma involução se comparada ao primeiro filme, devido ao uso maior do CGI em detrimento dos efeitos práticos prejudicar a composição de muitas criaturas (a sensação de artificialidade é grande durante a ação da vilã e de seu capanga de duas cabeças).

Nem tudo, porém, é defeito em “MIB: Homens de preto 2“. Há o carisma de Will Smith; a trilha sonora de Danny Elfman, que sabe como imprimir encantamento e suspense diante do espaço sideral desconhecido e utilizar a canção “Who let the dogs out?” de forma engraçada; e a permanente associação do verde ao extraterrestre na fotografia feita por Greg Gardiner. Apesar de alguns predicados espalhados pela obra, essa continuação falha na tentativa de resgatar o clima do anterior e acaba sendo um projeto nada marcante.

Um resultado de todos os filmes que já viu.