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“MISSÃO: IMPOSSÍVEL – PROTOCOLO FANTASMA” – A diversão está de volta

Para ler a crítica do primeiro filme (“Missão: impossível“, de 1996), clássico do mês de julho de 2018, clique aqui.
Para ler a crítica do segundo filme (“Missão: impossível 2“, de 2000), clique aqui.
Para ler a crítica do terceiro filme (“Missão: impossível 3“, de 2006), clique aqui.

Imprimir um estilo visual e narrativo específico a cada filme é um grande mérito da franquia “Missão impossível”. As mudanças de diretores são capazes de refrescar a abordagem e o entendimento do universo de Ethan Hunt. No caso de MISSÃO: IMPOSSÍVEL – PROTOCOLO FANTASMA, coube a Brad Bird dar continuidade ao projeto, unindo diversão, adrenalina bem dosada, narrativa eficiente e a marca própria do cineasta.

Na missão da vez, o agente Hunt e sua equipe possuem um desafio duplo: prevenir um ataque nuclear global e trabalhar sem os recursos e o apoio dados pelo IMF, agência desautorizada após um atentado ao Kremlin. O roteiro cria sequências de causa e efeito que tornam a trama ágil e seus acontecimentos sempre interligados e necessários (a complexidade da tarefa maior a ser cumprida reflete na escalada de tensões e dificuldades existentes nas pequenas missões). A gravidade se intensifica quando a agência IMF é renegada e seus agentes passam a atuar na clandestinidade (um elemento de roteiro bem inserido, que renova as possibilidades da franquia e amplia os conflitos dos personagens).

As virtudes temáticas não exigem, necessariamente, um enredo intrincado e denso. A narrativa é simples (explicada sem exageros didáticos) e sua base centrada nos riscos de uma guerra nuclear a partir do antagonismo entre EUA e Rússia combina com o tema da obra – o subgênero de espionagem deve muito aos conflitos ideológicos da Guerra Fria e essa referência histórica se torna uma qualidade indireta do roteiro. A falha reside na composição do vilão como símbolo de um embate entre os dois países: é um personagem sem camadas e motivações críveis (uma sequência que exibe uma palestra gravada aponta apressadamente seu objetivo), criado simplesmente como motor da narrativa – portanto, o ator Michael Nyqvist não tem muito com o que trabalhar, nem tempo de tela para surgir como uma figura ameaçadora.

O restante do elenco não é desenvolvido dramaticamente, justamente por não ser a proposta. O Ethan Hunt de Tom Cruise tem poucas linhas de diálogo que sugerem, só ao fim do filme, uma trajetória de sacrífico pessoal pela proteção de sua esposa – o ator tem mais espaço para comprovar seu esforço físico nas sequências de perseguição e luta e seu comportamento pouco afeito a regras; Simon Pegg e Paula Patton, vivendo Benji e Jane, se comportam bem como agentes de campo auxiliares de Hunt e funcionam como alívio cômico e arquétipo da dedicação integral à missão, respectivamente; o maior problema fica por conta do William Brandt de Jeremy Renner, que não comprova sua necessidade narrativa e é vivido por um ator que se sai melhor em dramas do que em filmes de ação (foi exatamente no período do filme que se tentou vender Jeremy Renner como um substituto de Tom Cruise na franquia e como um possível novo astro da ação).

A assinatura visual do longa pode ter surpreendido alguns, considerando-se a estreia de Brad Bird no live action (ele até então havia dirigido as animações “Gigante de ferro“, “Os incríveis” e “Ratatouille“). Ao debutar em um novo tipo de filme, o cineasta constrói planos, composições e imagens esteticamente bonitas (como a escalada de Hunt num arranha-céu em Dubai e sua corrida atrás do vilão tendo um tempestade de areia às suas costas) e um tom que se assemelha a uma fantasia por não se levar a sério nem ter vergonha de seus absurdos (a já referida sequência em Dubai e os apetrechos tecnológicos inventados, por exemplo).

O diretor também consegue manter um ritmo interessante para o espectador, apesar de suas mais de 2 horas de projeção. Ao lado do montador Paul Hirsch, a alternância entre sequências de ação e de diálogos é bem equilibrada e realizada para capturar continuamente o interesse do público – até nos momentos em que não há ação, os diálogos complementam as sequências anteriores ou posteriores e assumem papel relevante. Outra virtude de Brad Bird é a condução das sequências de ação, tendo uma mise em scène inteligível e beneficiada por uma câmera estável que não abusa dos movimentos abruptos nem dos cortes muito rápidos (torna-se assim uma evolução na direção ao compararmos com o trabalho instável de seu antecessor J.J. Abrams no segundo filme)

O trabalho de som como um todo igualmente merece elogios. A mixagem de som integra muito bem os ruídos ambientes (oriundos, principalmente, das sequências de perseguição ou luta corporal) com os diálogos e a trilha sonora. A composição musical de Michael Giacchino volta a acertar no uso esporádico do tema clássico da franquia em instantes secundários, deixando a canção toda aparecer na abertura e no clímax do filme.

Após algumas oscilações do projeto com “Missão: impossível 2″ e “Missão: impossível 3”, “Missão: impossível – Protocolo fantasma” traz de volta a sensação do primeiro filme de 1996: uma produção eficiente por si mesmo com uma narrativa contagiante. Além de ter demonstrado como a franquia tem muita saúde para novas incursões em seu universo, revisitando e rejuvenescendo personagens, situações e temas.

Um resultado de todos os filmes que já viu.