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“MISSÃO NO MAR VERMELHO” – Baixa voltagem cinematográfica

MISSÃO NO MAR VERMELHO consegue ser a mistura entre um tema pulsante e uma estética tímida de pouquíssimo impacto. A nova produção original Netflix, pelo menos, serve ao propósito de exemplificar como uma história voltada para os refugiados e para as dificuldades de países africanos não garante, necessariamente, um bom filme. Tudo é tratado com uma apatia cinematográfica que empalidece qualquer relevância observada nas questões levantadas: o tema, os personagens, a condução da narrativa e os elementos estéticos.

Cartaz de “Missão no mar vermelho”

Inspirando-se em eventos reais ocorridos em 1997, a trama acompanha a missão de resgate de judeus etíopes do Sudão para levá-los para Jerusalém, designada pelo primeiro-ministro israelense para a agência Mossad. Sob a liderança de Ari Kidron, um grupo é reunido como uma equipe de ajuda no translado dos refugiados. O plano de resgate é inusitado: abrir um falso resort, o Red Sea Diving, para turistas de verdade, enquanto os agentes disfarçados de hoteleiros conduzem os etíopes às escondidas na direção de navios israelenses na costa do Sudão.

É a partir dessa proposta que conflitos sociais e históricos distintos, mas igualmente urgentes, convergem. No primeiro plano, estão as mazelas existentes no continente africano relacionadas às rivalidades extremas entre etnias inimigas, às guerras civis pelo poder, à influência violenta de grupos paramilitares que oprimem a população e à miséria resultante de diversos problemas históricos – a narrativa contém imagens fortes e angustiantes de indivíduos fisicamente afetados pelas adversidades locais (o enfraquecimento de sua saúde pela subnutrição e pelos graves ferimentos) e emocionalmente abalados pelos riscos contínuos (a dor de uma mãe separada de todos os seus parentes e aflita com a doença do filho e o suicídio cometido por uma jovem sem esperanças). Em outra camada, questão dos refugiados religiosos judeus que querem fugir dos perigos na Etiópia e encontrar um refúgio em Jerusalém, aspecto pouco trabalhado e concebido apenas como um artifício de roteiro para dar um destino para a jornada dos personagens.

Demonstração da superficialidade na abordagem do aspecto religioso da história é o subaproveitado diálogo entre Ari e Rachel sobre todos os agentes serem, de algum modo, refugiados – de uma possibilidade de acrescentar camadas adicionais à narrativa, a conversa simplesmente se converte em algo deslocado e esquecido com o decorrer do filme. Tais oportunidades desperdiçadas se refletem também no inexistente desenvolvimento dos personagens: os coadjuvantes integrantes da equipe não possuem arco próprio, personalidade reconhecível e habilidade específica para a missão (mesmo Sammy, que teve uma relação mais sólida com Ari no passado, relação que desencadeou ressentimentos nele, se torna um detalhe vago na trama). Já o protagonista não exige muito dramaticamente da atuação de Chris Evans, que não vai além do burocrático, em razão da única característica destacada do personagem ser uma postura física de liderança.

Quando a provação tem início, a produção assume um estilo de ação que lembra muito o que aconteceu com “Argo“, ainda tendo referências a “Hotel Ruanda” graças ao componente histórico. No entanto, faltam o vigor dramático do filme protagonizado por Don Cheadle e a carga de tensão do filme de Ben Affleck. Colocar agentes em campo disfarçados, simular o funcionamento de um hotel, transportar os africanos até o litoral, enganar as autoridades e os paramilitares locais e lidar com os riscos da descoberta do plano poderiam render momentos verdadeiramente tensos e urgentes se as sequências de ação fossem construídas assim. Devido à incapacidade de dar um senso de perigo concreto e de adrenalina por parte de Gideon Raff, o clímax do terceiro ato não tem força dramatúrgica nem gera no público temor do que pode acontecer – ele é facilmente superado pela cena em que os paramilitares fazem uma refeição no hotel.        

O mesmo marasmo também se faz presente na criação visual da obra, tornada pouco expressiva por conta da confrontação dos pontos positivos e negativos. Por um lado, existem acertos na transição das cenas, como o raccord gráfico que faz um avião de brinquedo se dissolver e dar lugar a um avião real sobrevoando os céus; e a montagem paralela eficiente da preparação da missão, do recrutamento da equipe, o sucesso do resort quando começa a receber turistas e o funcionamento do hotel entrecortado pela ajuda aos africanos. Por outro, há o clichê do encadeamento das cenas em que na primeira um personagem diz que algo nunca acontecerá, para, na cena seguinte, esse algo ser mostrado acontecendo; e o problema da composição cênica do momento em que Ari comunica seu arriscado plano (sozinho no lado esquerdo do quadro) e todas as autoridades duvidam da possibilidade de triunfo (reunidas no lado direito do quadro), dando a entender que o protagonista estava sem apoio, o que é logo rechaçado na cena seguinte quando o projeto começa a ser executado.

O fato de um filme remeter aos outros nos quais claramente se inspirou pode ser uma benesse ou um revés. Tudo depende de como a narrativa se estrutura na prática em termos dramatúrgicos, temáticos e estéticos. No caso de “Missão no mar vermelho“, as referências acabam se apresentando como consideravelmente melhores em comparação à produção tímida e pouco contundente que chega à Netflix.    

Um resultado de todos os filmes que já viu.