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“MOGLI: O MENINO LOBO” – Reverências ao clássico

O cronograma de projetos recentes da Disney tem uma parte destinada à revisitação de clássicos da animação e à sua produção em live action. “A bela e a fera“, de 2017, e “Christopher Robin: Um reencontro inesquecível“, de 2018, são exemplos já realizados, pertencentes a uma lista que ainda terá no futuro”O Rei leão“, “Aladdin“, entre outros. MOGLI: O MENINO LOBO foi também lançado com esse propósito, tendo John Favreau na direção e se colocando a difícil tarefa de homenagear o original e ainda acrescentar o estilo do diretor.

A base da história clássica ainda está lá: Mogli é um menino afastado do convívio com os seres humanos e criado por lobos, que precisa aprender a viver na floresta. No novo filme, tem sua vida ameaçada pelo tigre Shere Khan e embarca em uma viagem em direção à vila dos homens, acompanhado pela pantera Bagheera e pelo urso Balu. John Favreau não se arrisca em planos ou enquadramentos ambiciosos, pois sua atenção está voltada para enfatizar o visual da floresta e dos animais criados pela equipe de efeitos visuais. A mão do cineasta se faz mais presente quando tenta combinar a ternura e a leveza, típicas do enredo, com a aventura preenchida por muitas sequências de ação. No geral, o equilíbrio pretendido é alcançado.

Existe um motivo claro para o diretor explorar tanto os efeitos visuais da obra: a beleza estética e a função dramática (na maioria das vezes) das criações por computação gráfica. O chroma key e demais efeitos computadorizados estabelecem cenários belos, críveis e atentos aos mínimos detalhes da composição da fauna e flora locais – a selva, os riachos e a morada dos lobos são feitos de modo a convencer que Mogli está, de fato, interagindo com o ambiente. A única ressalva fica por conta da iluminação noturna para as locações, que investem muito mais no encanto visual do que na verossimilhança.

Em relação aos animais,as técnicas da captura de movimentos e do CGI produzem resultados com grande nível de detalhamento das expressões faciais e das mobilidades corporais. A pantera Bagheera, o tigre Shere Khan, a cobra Kaa e a alcateia de lobos em geral são as criaturas de maior refinamento físico e psicológico, através das características de seu próprio corpo: Bagheera é representado como um valente companheiro para garantir a segurança de Mogli; Shere Kan é o vilão ameaçador de face sombria e ferida; Kaa é sedutora e igualmente ameaçadora; e os lobos traduzem bem o companheirismo desfrutado pelo protagonista. Entretanto, o macaco Rei Louie e o urso Balu não possuem tantas camadas dramáticas, em razão da falta de sutilezas de seus semblantes.     

Se a combinação entre ternura e ação acontece, o mesmo não pode ser dito sobre a conciliação entre homenagem aos elementos clássicos e criação de uma narrativa própria. As canções “The bare necessities“e “I wanna be like you” são inseridas em momentos sem força dramática ou mal encenadas (dando a entender que são apenas fan services). Além disso, o desejo de colocar o maior número possível de personagens faz com que Mogli seja atirado ininterruptamente em várias situações diferentes, algo que provoca prejuízos narrativos: sua relação com Balu não é bem desenvolvida e a presença de Louie é dispensável por não acrescentar muito ao filme (sem falar na mal sucedida tentativa de fazer um número musical para o personagem).

A montagem das sequências com muitas referências empilhadas também comprometem o aprofundamento dos temas. Existem duas questões centrais que perpassam toda a narrativa: como o protagonista pode conviver com os lobos e ainda preservar sua singularidade como membro de outra espécie; e a crença por parte dos outros animais de que o ser humano é majoritariamente violento e ameaçador (associado ao fogo, chamado de “flor vermelha”). No fim das contas, esses dois temas são apresentados e concluídos passando a sensação de que algo faltou no meio como desenvolvimento.

A Disney e John Favreau, entre erros e acertos, ainda merecem elogios na escolha do elenco. Neel Sethi interpreta Mogli com as nuances próprias da personalidade de um jovem menino, que passam pela ingenuidade, pelo espírito aventureiro, pela impulsividade e pela determinação; e o conjunto de atores que dublam os animais fornecem credibilidade ao projeto, bem como força dramática aos personagens: Ben Kigsley (Bagheera), Idris Elba (Shere Khan), Bill Murray (Balu), Scarlett Johansson (Kaa) e Christopher Walken (Rei Louie). Os nomes envolvidos e a eficiência dos efeitos visuais conseguem elevar o patamar de “Mogli: O menino lobo” um pouco acima do que seus problemas no tratamento das referências à história original o colocaram. Ao final, como esforço de transposição para o live action, o filme ganharia ainda mais se não fosse tão reverente ao passado de seu protagonista.      

Um resultado de todos os filmes que já viu.