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“NOS VEMOS NO PARAÍSO”- Ladrão que rouba ladrão

Um drama levemente cômico e melancólico em boa medida: NOS VEMOS NO PARAÍSO é isso e muito mais. Com um desfecho estupendo, o filme conta com uma bonita trama sobre a relação entre pai e filho a partir de um argumento bastante original. No longa, Édouard e Albert se tornam amigos após o primeiro salvar a vida do segundo durante a Primeira Guerra. Em uma das batalhas, Édouard sofre um grave acidente que deforma parte de seu rosto. Triste e desanimado, ele conta com a ajuda de Albert para assumir uma nova identidade e seguir uma vida reclusa. Algum tempo depois, eles organizam um golpe para lucrar sobre seu ex-comandante, que agora explora as vítimas da Guerra.

É uma trama de “ladrão que rouba ladrão”, o que é interessante por si só. A dupla principal não age bem e sabe disso, isto é, eles sabem que o que fazem não é moralmente elogiável. Porém, fazem parte de uma parcela marginalizada da população que perdeu tudo, fato que os motiva a agir por meios escusos, em especial porque suas vítimas são homens poderosos que, de maneira inescrupulosa, engana e aufere renda sobre pessoas em luto. Não há nenhuma personagem relevante que seja um arauto de moralidade, o que dá humanidade ao roteiro de Albert Dupontel.

Dupontel, aliás, que atua como roteirista e diretor, além de estrelar o longa ao lado de Nahuel Perez Biscayart. O argentino Biscayart já tinha fascinado o público com sua interpretação visceral em “120 batimentos por minuto”; trata-se de um ator espetacular cuja expressividade no olhar é simplesmente singular. No papel de Édouard, ele é soberbo; seus olhos, por exemplo acabam tendo grande relevância, como na cena em que ele se assusta ao ver o próprio rosto no hospital. Por outro lado, Édouard tem um quê de pueril, o que facilita a empatia com a personagem. Dupontel é engolido pelo gigante Biscayart, o que, contudo, em nada prejudica a película, pelo contrário: Albert (papel do homônimo Dupontel) é apenas um adjuvante que auxilia o sujeito (Édouard) a alcançar o objeto almejado (que não precisa ser aqui anunciado). Laurent Lafitte é o opositor Henri, um vilão unidimensional, mas que não precisaria, em tese, de complexidade, pois apenas motiva a dupla principal. O veterano Niels Arestrup é Marcel, pai e carrasco de Édouard, mas que acaba sendo um inesperado (para as personagens, pois o público já sabe) doador.

Fato é que o roteiro de Dupontel se arrisca ao fazer humor a partir de uma história trágica – mais precisamente, é uma adaptação do livro de mesmo nome escrito por Pierre Lamaitre, que colaborou com o script. O viés é semelhante ao italiano “A vida é bela”, com uma diferença estrutural que dá um xeque-mate no espectador no desfecho, referente a uma manipulação (Albert, interno à história, está contando os fatos pretéritos a uma personagem externa a ela). Ainda no roteiro, a tentativa de multitrama é falha, pois as subtramas conectadas (como o romance de Albert e a vida da irmã de Édouard) são extremamente frágeis e diluem em demasia a narrativa.

Se Biscayart é melhor que Dupontel na atuação, o cineasta é magnífico na direção. Aproveitando-se do nome original da produção (“Au revoir là-haut”, ou “Adeus lá de cima”), são vários os movimentos aéreos com a câmera, em especial a própria câmera no sentido vertical e em descida (ou seja, não se reduz a tilts), o que gera criativos establishing shots. Semelhante ao que faz Iñárritu, a câmera de Dupontel tem a mobilidade de uma personagem autônoma (o plano-sequência inicial seguindo um cachorro e a cena em que Albert vai à casa de Marcel são bons exemplos). O longa conta com uma trilha musical instrumental delicada e coerente, bem como um bom design de som – os efeitos visuais não têm a mesma excelência. A fotografia de Vincent Mathias é coesa ao investir em cores terrosas e iluminação diminuta – afinal, o contexto não é animador. O design de produção de Pierre Quefféléan é maravilhosa, merecendo destaque especial o figurino de Mimi Lempicka e a arte esplendorosa de Lilith Bekmezian, vista, por exemplo, nas deslumbrantes máscaras usadas por Édouard. A cena na trincheira é um bom exemplo da estética formidável da película, com os uniformes azuis sujos – exceto, é claro, o do tenente.

Uma pequena falha da produção é a sequência elíptica que resume a infância e a adolescência de Édouard. Apesar de bastante didática, a sequência merecia maior apuro – ou seja, é eficaz, mas exageradamente lacônica. Apesar de ter mais de duas horas, o filme não parece ser tão longo, sendo possível talvez tirar uma subtrama para deixar essa sequência melhor desenvolvida. Diante de tamanho apuro, contudo, “Nos vemos no paraíso” pode não entrar no panteão dos imortais franceses, mas merece a atenção do público mundial.

Filme assistido no Festival Varilux de Cinema Francês 2018.

Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.