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“O MECANISMO [2ª TEMPORADA] – Política e corrupção para principiantes

A estreia da primeira temporada de O MECANISMO provocou polêmicas em 2018 por conta de seu tema: a operação Lava Jato durante o governo Dilma Rouseff. Muitas críticas à leitura política de José Padilha sobre o Brasil contemporâneo alimentaram ainda mais a polarização em relação à obra e deixaram de apontar seus problemas técnicos e narrativos. Na segunda temporada, algumas deficiências foram corrigidas (como a mixagem de som antes incompreensível) e outras novas surgiram (como a evolução dramática dos episódios), resultando em uma série excessivamente didática e nada sutil para o público.

Cartaz de “O mecanismo”

O segundo ano da produção se concentra a maior parte de seus capítulos na continuidade do trabalho policial para elucidar os esquemas de propina e lavagem de dinheiro envolvendo doleiros, empreiteiros e políticos. Dessa forma, os policiais Verena, Vander e Guilhome seguem no encalço do empresário Ricardo Brecht, contando com o auxílio do Ministério Público e do juiz Paulo Rigo. Nos últimos episódios, o rumo das investigações conduz a Polícia Federal a tramas e negociações ilícitas que chegam aos principais partidos do país, abrindo dúvidas acerca dos desdobramentos políticos da Lava Jato.   

Em termos de roteiro, os primeiros capítulos sabem costurar os crimes de Ibrahim e Ricardo ao cenário atual do Brasil: o primeiro como uma peça chave sempre presente nos esquemas de corrupção e ainda como um indivíduo envolvido em seus próprios negócios escusos relacionados ao Paraguai; o segundo como o alvo central do início da temporada, sendo sua prisão decisiva para se atingir o alto escalão do poder. O texto acerta na construção da investigação, indicando os vários participantes e seus muitos desafios, por vezes, manobrando a lei de modo questionável – Ruffo por iniciativa individual, a polícia federal, o Ministério Público e o juiz Rigo constituem engrenagens distintas de um quebra cabeça que se afunila em um jogo de gato e rato instigante, à primeira vista com um bom potencial para o suspense.

O potencial do suspense não se efetiva plenamente por conta da direção de José Padilha e da montagem de Daniel Rezende. Ambos são profissionais que já mostraram sua competência em trabalhos anteriores, mas que, dessa vez, estão burocráticos e incapazes de repetir ou elevar a forma como tornavam a narrativa ágil, dinâmica e tensa na primeira temporada. Nesse segundo ano, apesar de o roteiro prever pequenos e sucessivos momentos de clímax a cada etapa bem sucedida ou frustrada da investigação e após seus resultados, a direção e a montagem não prepararam o crescimento gradual da energia ou o ápice dramático das pequenas conclusões – são sequências filmadas sem o devido peso por Padilha, que não destaca os momentos mais impactantes, e um eficiente encadeamento de planos por Rezende, que não reforça a transição dos fatos e das consequências.

Ainda que exista tais falhas, a narrativa confere uma atenção maior a outros aspectos técnicos pouco explorados até então. A série estabelece novos cenários muito expressivos das diferentes condições econômicas e morais dos personagens, como a simplicidade e o conforto do apartamento de Guilhome, a mansão espelhada e luxuosa de Ricardo e os ambientes alternativos e degradados trilhados por Ibrahim e Ruffo no Paraguai. Enquanto os novos espaços são exibidos, ainda há um trabalho de fotografia apurado para imprimir o desamparo e o pessimismo diante de uma onda de corrupção aparentemente inesgotável – cores frias e melancólicas recobrem a prisão onde estão os empreiteiros e as moradias dos policiais federais e uma iluminação mais realista e saturada preenche a fazenda para onde foi a família de Ruffo após a briga com sua esposa.

A direção tomada pela temporada volta a dar destaque a Ruffo, recolocado no papel de protagonista com o arco mais bem definido. A busca pela verdade a qualquer custo faz com que o ex-policial entre em uma jornada pessoal de captura do Ibrahim e de eliminação do tão referido “mecanismo” de corrupção, responsável por destruir sua vida profissional e desgastar sua família até o instante derradeiro em que precisa tomar uma decisão essencial. Os demais personagens, contudo, ocupam uma posição periférica na trama, tendo seus próprios conflitos pouco desenvolvidos, mencionados rapidamente ou mal justificados: as relações conjugais problemáticas afetando o trabalho dos agentes do Ministério Público, a vida pessoal de Guilhome, as atitudes questionáveis de Vander e Verena em busca de justiça…

Quando “O mecanismo” chega ao sexto episódio, as questões políticas atuais retornam, apresentando algumas leves melhorias e outras consideráveis falhas. Existe um esforço reconhecível pela diversificação dos alvos das críticas, fato esse observado pelas diferentes autoridades de linhas partidárias variadas citadas (sem qualquer sutileza, identificam-se Eduardo Cunha, Lula, Dilma, Aécio Neves, Michel Temer e outros…). Entretanto, José Padilha se prejudica devido ao excessivo didatismo das narrações voice over de Ruffo e das metáforas pobres (o castelo de cartas é demasiadamente clichê e pouco inventivo) e também à necessidade auto-imposta de dar conta de diversos acontecimentos recentes em pouquíssimo tempo (torna-se algo apressado ou inserido na narrativa para dar a falsa impressão de que várias vozes sociais diferentes estão sendo consideradas). Mas o grande problema que resume a série é sua nova tentativa de se assumir como um discurso imparcial e objetivo à procura da verdade dos fatos – seria mais produtivo para o diretor reconhecer que a narrativa acompanha sua leitura da corrupção atual no país, pois, assim, não precisaria esconder suas impressões em diálogos e passagens aparentemente inofensivas e banais.

Um resultado de todos os filmes que já viu.