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“O MISTÉRIO DO RELÓGIO NA PAREDE” – Bando de cisnes

Começando e terminando com a temática referente à família, O MISTÉRIO DO RELÓGIO NA PAREDE é um terror infanto-juvenil similar a “Goosebumps”, porém mais pueril. Suas falhas são de fácil constatação, o que não exclui, todavia, o molde cirúrgico da obra para o seu público-alvo.

O protagonista do longa é Lewis, garoto que, após um acidente fatal com seus pais, passa a morar com seu tio, Jonathan. Apesar de perceber estranheza no tio e no novo lar, Lewis não sabe que está prestes a conhecer – literalmente – o mundo da magia.

Tratando-se de uma fantasia voltada ao espectador tão novo, o roteiro de Eric Kripke (que se baseou em obra original de John Bellairs) preferiu não arriscar muito, criando uma trama singela e extremamente maniqueísta. Esse é provavelmente o maior defeito da película, pois o script é trivial demais até mesmo para as crianças – ou seja, era plenamente possível dar maiores camadas às personagens.

Não obstante, há um subtexto de conteúdo que vai além de referências culturais quase subliminares – notadamente James Dean e Salvador Dalí. O plot aborda tanto temas que, a rigor, não seriam infantis, como a orfandade e o pós-guerra, até outros mais palatáveis aos infantes, como bullying e coragem. A fantasia de terror tem em seu íntimo um drama deveras realista e triste: em última análise, é a morte abordada em um invólucro de luta de bem contra o mal usando poderes mágicos.

Owen Vaccaro interpreta Lewis com competência que não chega ao extraordinário. O protagonista é um garoto de baixa autoestima (principalmente em relação à coragem, algo muito demandado na idade) e introspectivo, mas com muita personalidade – o que faz com que ele não tenha facilidade em largar os óculos que homenageiam seu herói, o “Capitão Meia-Noite”. Lewis é muito inteligente e gosta de aprender novas palavras, curiosidade que o aproxima das descobertas que faz na casa do tio.

Por sua vez, tio Jonathan é vivido por um Jack Black de menos overacting do que de costume, mas derrapando nos momentos mais dramáticos. Como o tio não sabe cuidar do menino (que é mais responsável que o adulto ao esclarecer que não pode comer biscoitos como jantar), aparece sua vizinha, Florence, uma senhora também feiticeira cujos poderes são mais elevados que o de Jonathan. Cate Blanchett parece se divertir no papel, tendo apenas um momento dramático, bastante efêmero, que expõe o quanto ela é uma atriz diferenciada. O trio serve para mostrar que família não precisa ser apenas a de sangue.

É animador perceber que, depois de filmes pavorosos (em especial “Desejo de matar” e “Bata antes de entrar”), o diretor Eli Roth dá ao público um filme razoável (e com muito menos sangue) como é “O mistério do relógio na parede”. Inquestionavelmente, o que a película tem de melhor é o design de produção: a casa mal-assombrada é repleta de ornamentos que misturam o vintage (já que a história se passa em 1955) com o terror, como relógios com cucos e bonecos macabros, sem deixar de lado um humor leve (que podia ter deixado de lado a episódica escatologia), como a poltrona canina. O figurino é exótico, apostando no amarelo para a mãe de Lewis, representando sua alegria, e no roxo para Florence, simbolizando o mistério que sua figura retrata.

A composição dos quadros é bem feita ao apresentar constantemente figuras circulares – por exemplo, nos incontáveis relógios, nos óculos de Lewis e nos cookies. O design de som aproveita a mesma ideia no tiquetaquear da edição de som. O filme tem leves jumpscares, em pouca quantidade, que dificilmente surpreendem um espectador adulto. No terceiro ato, há uma considerável queda de qualidade, quando o longa parece um jogo de videogame, com CGI que deixa a desejar e um desenvolvimento muito simplista. Ainda assim, o sensível discurso sobre família, mesmo raso, pode ter um efeito positivo no público. Na pior das hipóteses, se resume a divertir o espectador.

Obs.: o título da crítica se refere a um elemento importante do roteiro, portanto só é possível entender o significado do título após assistir ao filme.

Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.