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“O PROTETOR” – Discrepâncias num mesmo filme

Antes das mudanças estilísticas operadas nos filmes de ação por “John Wick” e “Atômica“, Antoine Fuqua já imprimia um estilo particular a seus trabalhos como diretor de ação. Muito além de se preocupar apenas com sequências de perseguição, tiroteio ou confronto corporal, ele introduzia uma carga dramática a seus personagens. Essa é uma das qualidades de O PROTETOR em sua parte inicial, enquanto o uso inadequado das convenções de gênero ainda não comprometia o que vinha sendo construído.   

Na trama, o ex-agente secreto Robert McCall tenta viver discretamente, deixando seu passado violento para trás. Tudo muda quando conhece Teri, uma jovem garota de programa sob poder da máfia russa, e decide ajudá-la a se libertar da opressão em que vive. Em termos temáticos, o filme contradiz a mensagem que tenta transmitir: transformações são possíveis na vida, podendo levar qualquer pessoa a fazer algo novo que desejar (conteúdo citado a partir da alusão ao livro “O velho e o mar” de Ernest Hemingway lido pelo protagonista). Porém, toda a trajetória de Robert parece contrariar o ensinamento e apenas mostrar como abandonar um passado e antigas práticas é algo improvável.  

Seria possível atenuar críticas ao tema central se a narrativa de filme de ação se sustentasse e atingisse seus objetivos. O que, de fato, não acontece e se torna seu maior problema. Existe a sensação de que duas obras distintas se sucedem na tela, a primeira consideravelmente superior à segunda. No primeiro ato, a atenção está em acompanhar o protagonista em sua rotina diária e na manifestação sutil de suas características: é um homem metódico, que regula o tempo de suas atividades; solitário, que passa bastante tempo sozinho em casa ou lendo em uma lanchonete; e solidário, ajudando um colega num teste para um trabalho como segurança e convencendo Teri a mudar de vida. A câmera de Fuqua e a montagem de John Refoua valorizam os momentos contemplativos do personagem através de closes e de planos relativamente longos focados em sua expressão pensativa.

O evento transformador da narrativa é a primeira sequência de ação, na qual Robert confronta alguns membros da máfia russa e mostra suas habilidades em lutas corpo a corpo. Fuqua utiliza o zoom-in no rosto do protagonista, planos-detalhe em armas e outros objetos, slow motion e uma coreografia realista para retratar a violência e a capacidade de antevisão de Robert, responsável por projetar seus próprios movimentos e de seus inimigos. Tal sequência não serve apenas como entretenimento, mas também como ponto de virada da história e de seu protagonista: ele não consegue tolerar a violência sofrida por Teri e decide agir do seu modo brutal que até então não conhecíamos (ocasionalmente, ajuda outras pessoas vítimas de algum tipo de ameaça criminosa).

Até o momento citado, é possível ver a competente atuação de Denzel Washington. O ator entrega as diferentes matizes emocionais construídas pelo roteiro: uma tristeza solitária relacionada a alguma perda do passado, a empatia com que interage com diversas pessoas no cotidiano e uma brutalidade sem concessões no tratamento aos antagonistas. Além disso, ele ainda tem a energia necessária para as sequências de ação, convencendo como um especialista em confrontos realistas e em golpes certeiros para abreviar ao máximo as lutas. Denzel se mostra muito à vontade na história, repetindo a parceria com um diretor que faz sua câmera sempre procurar e valorizar o ator.

Se tudo andava relativamente bem até o primeiro grande momento de luta, o mesmo não se aplica ao desenvolvimento subsequente da narrativa. A mudança de escala da ação trouxe resultados piores ao filme: o mais grave foi abandonar o realismo e a dramaticidade de Robert e construir para o protagonista uma imagem de super-herói capaz de qualquer proeza irreal. A partir disso, as sequências de ação se tornam uma sucessão de conveniências e facilitações do roteiro que contrariam o estilo realista anterior e enfraquecem os riscos para o protagonista. Até os elementos dramáticos razoavelmente bem orquestrados até então sofrem: a produção apresenta três possíveis finais até o desfecho definitivo apenas para resolver (de modo excessivamente didático) todas as pontas das subtramas, algo que compromete o ritmo da narrativa.

O desenrolar dos atos também revela a composição pobre dos demais personagens, problema em parte sob responsabilidade de alguns atores. Chloë Grace Moretz é inexpressiva e desaparece misteriosamente da maior parte do filme; Marton Csokas é o clichê do vilão de caras e bocas caricaturais (ou melhor, de tatuagens absolutamente previsíveis filmadas sem necessidade); e Melissa Leo parece muito mais um artifício do roteiro para relembrar ao protagonista seu passado e não uma pessoa real.

Depois de passar pelos quatro desfechos de “O protetor“, o público provavelmente sentirá falta do primeiro ato. Uma parte da narrativa que, ao menos, proporcionava uma diversão razoável que não se prolongou a contento ao longo da projeção.  Tentou ter identidade própria, mas não deixou de ser um filme de ação genérico. 

Um resultado de todos os filmes que já viu.