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“O QUEBRA-NOZES E OS QUATRO REINOS” – Deslumbrante, mas não marcante

Afirmar que os créditos do final reservam os melhores momentos de O QUEBRA-NOZES E OS QUATRO REINOS já serve de indício de que o novo filme Disney não é dos melhores. E não é mesmo: faltaram história, paixão, encanto e cinema. Só não faltou investimento. O que não adiantou nada.

A protagonista do longa é Clara, uma garota esperta que recebe de presente da sua mãe um ovo que só pode ser aberto com uma chave especial. Ela pede ajuda para o seu padrinho, não fazendo ideia de que estaria prestes a iniciar uma aventura mágica.

A direção de Lasse Hallström e Joe Johnston extrai riqueza visual da pobreza narrativa que tem em mãos. O 3D do longa é maravilhoso, o que se denota do próprio prólogo, uma animação em longuíssimo plano-sequência aéreo. Embora o público-alvo seja o infantil, demandando uma estética inofensiva, em alguns momentos, o visual é – na medida do possível – assustador, unindo ratos, nevoeiro e palhaços verdadeiramente sinistros.

O figurino concebido por Jenny Beavan não exigiu um trabalho dificultoso em termos de variação, pois a protagonista é a única personagem relevante que muda de vestuário, e o faz apenas duas vezes. Não obstante, há uma contraposição bastante explícita entre o mundo real e a fantasia: naquele, as roupas são elegantes, mas dentro de uma estética realista; nesta, o estrambólico e o temático ganham vez. Assim, Clara usa um vestido comum lilás para um baile, enquanto o representante do Reino das Flores usa cachos no cabelo simulando pétalas, flores ao invés de uma gravata e mangas sobrando para dar aparência floral.

É um filme Disney, o que significa que o design de produção de Guy Hendrix Dyas não é menos do que esplendoroso. Repleto de adereços significativos, é aprazível procurar mensagens visuais – por exemplo, a casa de Clara tem paredes azuis, em um tom muito mais acolhedor do que o vermelho opressivo do local do baile. Na maquiagem, departamento com um número enorme de profissionais, o exagero é muitas vezes coerente, como com a Fada Plum (tradução que deram para Sugar Plum), porém a provável empolgação ensejou excesso desnecessário, como com o capitão.

Quanto às personagens, provavelmente é Keira Knightley quem mais se diverte, pois o papel de Fada Plum é o que mais dá camadas para serem trabalhadas. A voz aguda que a atriz faz é uma sutileza que enaltece seu talento. Helen Mirren, com pesada maquiagem (sua pele parece porcelana quebrada), não tem o mesmo brilho, mas vai bem no papel. Já Mackenzie Foy tem seu primeiro papel relevante (melhor desconsiderar a Renesmee da saga “Crepúsculo”, que envergonha um currículo que ainda está no início) e consegue ser competente diante de tantos profissionais experientes ao seu redor. Quanto a Morgan Freeman… há tempos ele encara produções vazias para acumular mais dinheiro. Essa é só mais uma.

O problema está mesmo com o roteiro de Ashleigh Powell, cuja pobreza é escancarada. Partindo de um drama familiar, o plot faz da aventura de Clara uma solução mágica (no sentido ruim do termo) e, portanto, simplista, para o conturbado relacionamento com o pai. A personalidade da protagonista é de pouca solidez, principalmente porque, mesmo com a cavalar suspensão da descrença exigida, não faz sentido que uma garota insegura e inexperiente comande um exército. O roteiro é a prova de que mcguffins e plot twists não bastam para o texto ter qualidade.A produção não faz jus ao legado inestimável deixado por Tchaikovsky, pois sequer as suas imortais composições são bem utilizadas. A presença da música erudita é inafastável (ao contrário das referências imagéticas ao “Lago dos Cisnes”, que podem ser consideradas easter eggs) e as pontuais mudanças estruturais (como de ritmo) não fazem mal. Contudo, de nada adianta ter músicas tão belas se elas não são valorizadas na película – talvez o único momento de exceção é o de uma apresentação de balé com cenário teatral para contar a história dos quatro reinos, cena exuberante. No mais, o filme é uma aventura fantástica deslumbrante na estética, mas nada marcante em termos narrativos.

Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.