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Os monstros que amamos temer

Monstros estão presentes no cinema desde seu início. Eles despertam nosso fascínio por tantos motivos que simplesmente não conseguimos não falar sobre eles. De criaturas fantásticas a animais que cresceram demais, os monstros do cinema surgiram tanto para nos atacar quanto para nos defender. Eles não são bons ou maus. Heróis ou vilões. Na maioria dos casos, sua existência está além do nosso conhecimento. Eles não vêm até nós para nos destruir. Nós é que vamos em seu encontro.

Falar sobre monstros gigantes no cinema significa passar por três filmes, obrigatoriamente: “King Kong”, de 1933 e dirigido por Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack; “Godzilla” de 1954 e dirigido por Ishirô Honda; e, naturalmente, “Tubarão” de 1975 e dirigido por Steven Spielberg. Cada um desses filmes nos apresenta uma visão diferente para o perigo representado pelas criaturas, que não por mero acaso dão os títulos aos seus respectivos filmes. Entender a concepção de cada uma dessas criaturas nos oferece a oportunidade de compreender como o cinema foi capaz de fazer crescer um estilo de filme (ou uma temática) que se sustenta em transformar o improvável no causador do medo.

Em “King Kong”, por exemplo, somos apresentado ao animal gigante, e portanto monstruoso, que habita uma ilha esquecida pelo mundo. O conceito se fundamenta em algo que resistiu à evolução natural do planeta. Ali existem animais pré-históricos, humanos primitivos e perigos além da nossa compreensão. Cercada por rochedos, a ilha na qual King Kong habita (a Ilha da Caveira) é quase inacessível, o que torna a aventura para chegar até o local o primeiro grande desafio do filme.

Ser inacessível não é um mero acaso (o que no cinema pode ser traduzido como “preguiça do roteirista”). O mundo não tem permissão para contemplar o que o canastrão Carl Denham (interpretado por Robert Armstrong) chama de “a Oitava Maravilha do Mundo”. Mas o que há de mais espetacular em “King Kong” é a sua natureza primitiva e misteriosa. Sua existência parece depender da nossa ignorância. Da mesma forma que sua ameaça só se torna real a partir do momento que tomamos conhecimento de que tal criatura existe. Não houve uma ação humana na sua criação, nem fomos até ele para enfrentá-lo. Apenas descobrimos sua existência e então decidimos fazer algo a respeito.

De fato, “King Kong” é um filme que fala mais sobre a essência humana do que sobre o tal monstro gigante que dá nome ao filme. O gorila apenas surge como uma força resistente, embora implacável. Ele não tem como objetivo nos atacar, mas faz isso para se proteger. Essa, talvez, seja a grande metáfora sobre tais criaturas. Elas são usadas para que possamos falar sobre nós mesmo.

E verdade seja dita, quem são os verdadeiros monstros nessas histórias? Ou, quem são os verdadeiros monstros na história? Quando, em 1945, os Estados Unidos decidiram atacar o Japão com duas bombas nucleares, mudando para sempre a forma como a humanidade iria encarar uma guerra, os japoneses viram seus adversários com o mesmo olhar que nós vemos os monstros do cinema. Para nós, essas criaturas gigantes são forças destruidoras, impossíveis de serem detidas se não utilizarmos força extrema. E é justamente no cenário pós Segunda Guerra que surgiu um monstro capaz de destronar o gorila gigante. Seu nome: Godzilla.

O lagarto gigante, revivido após um teste nuclear realizado pelo exército dos Estados Unidos, é uma das mais icônicas criaturas já criadas pela sétima arte. Sua existência, como metáfora às bombas de Hiroshima e Nagasaki, faz dele não apenas uma força da natureza, mas uma demonstração de uma forma de poder que não pode ser vencida apenas. Assim, é difícil não compreender o trauma que o final da Segunda Guerra criou para os japoneses.

Mas Godzilla se tornou mais que isso. Seu design peculiar e seus movimentos lentos foram responsáveis por uma das criaturas mais cultuadas entre os fãs de ficção científica. Além disso, ele foi o grande precursor de uma infinidade de filmes com a mesma temática, mostrando que não apenas de trauma vive o cinema japonês. “Varan – O monstro do oriente”, por exemplo, mostra um monstro gigante alado que decide atacar o Japão. Dirigido também por Ishirô Honda, em 1958, o filme é uma somatória de uma ameaça vinda dos céus com a tentativa do ser humano de ir até os limites da Terra para descobrir algo novo.

Essa retomada da narrativa presente em “King Kong” é particularmente interessante, pois em 1962 o próprio Ishirô Honda seria responsável por um dos mais célebres encontros de franquias da história do cinema: “King Kong vs. Godzilla”. O embate dos dois monstros, mais do que uma simples luta entre criaturas gigantes, é uma batalha entre narrativas e conceitos. E, mais importante, é uma demonstração da impotência humana quando comparada às forças da natureza, assim como as consequências de tentar manipular aquilo que não nos diz respeito.

E se, durante as décadas de 1950 e 1960, filmes que mostravam criaturas gigantescas colocando a humanidade em risco tornaram-se tão comuns, a ponto de se considerar tais narrativas como um subgênero – em especial dentro da ficção científica, embora o terror tenha se alimentado eventualmente do conceito -, em 1975 Steven Spielberg nos mostra que monstros não precisam ser gigantes nem desconhecidos.

Em “Tubarão”, o incansável assassino dos mares é tratado de forma a evidenciar não o monstro em si, mas a insegurança humana quando estamos próximos dele. O tubarão não é uma criatura desconhecida. Da mesma forma, nós sabemos que o mar é o seu ambiente natural, e espontaneamente decidimos invadir seu espaço. Ignoramos a ameaça até que ela se torne real e inevitável.

Mas o tubarão de Spielberg não é essencialmente um vilão. Ao menos não no sentido clássico do termo. E isso apenas reforça que filmes com (ou sobre) monstros gigantes não são filmes sobre mocinhos e heróis. São conceitos para falar sobre nós mesmos. É claro que, como diretor, Spielberg utiliza sua criatura como uma caçadora implacável. Ao mesmo tempo, seus perseguidores estão caçando esta mesma criatura a qualquer custo.

“Tubarão”, de certa forma, assume um estilo de narrativa sobre caça e caçador muito próxima da que é vista no cinema de Tobe Hooper. Em seus filmes, o mal nunca é uma ameaça até que as pessoas decidam se dirigir ao local onde o mal vive. Uma vez lá, as regras mudam e as pessoas se tornam vítimas de suas próprias decisões.

Naturalmente, os monstros gigantes do cinema vão muito além do exposto aqui. A infinidade de animais e criaturas místicas que já aterrorizaram plateias nos mais variados filmes renderiam longas narrativas para explicar seus diferentes conceitos e origens. Mas nenhum deles conseguiu estabelecer uma mítica tão particular quanto “King Kong”, “Godzilla” e “Tubarão”. Essa trindade estabeleceu conceitos tão bem definidos e nos apresentou a criaturas tão imponentes, que ainda hoje pagamos tributos buscando respeitar seu legado. Ou tentamos superá-las com outras criaturas, semelhantes ou não, cada vez maiores, para tentar oferecer um risco também maior. Bons ou ruins, o que não se pode negar é que a cada nova tentativa de ir além, esses três filmes se tornam cada vez mais imortais, assim como os monstros sobre os quais falam.

Estudante de jornalismo, cinéfilo e escritor nas horas vagas. Apaixonado por cerveja, café e literatura sci-fi e policial. Acredita na honestidade dos filmes ruins e que Ringo Starr sempre foi o melhor dos Beatles.