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“PÉ PEQUENO” – Conhecimento é poder

O estranho é monstruoso, geralmente concluem as pessoas, mesmo que de maneira inconsciente. Contudo, questionamento leva a conhecimento e “conhecimento é poder”. É com base nessas e em outras ideias que parte PÉ PEQUENO, uma divertida aventura cômica e musical em forma de animação.

Migo é um yeti que se prepara para assumir a função exercida por seu pai perante a comunidade: soar o gongo para que o caracol apareça no céu e acorde todos. A vida dos yetis é abalada quando Migo descobre um humano – da raça conhecida como “pés pequenos” -, o que era até então uma fantasia para eles. Desacreditado, ele decide provar o que viu.

Tendo em vista o público-alvo, em geral infantil, a narração voice over fica justificada para explicar toda a mitologia criada em torno dos yetis, em especial seu modo de vida, já que ficam isolados da humanidade. Eles são estimulados a acreditar em leis escritas em pedras – simbologia evidente da imutabilidade -, normas absolutas que ditam seus comportamentos e norteiam suas crenças. Nessa sociedade, questionar o que o Guardião da Pedra interpreta é inconcebível. As crenças desses seres não têm fundamento lógico – assim como, por exemplo, a tribo Sambia, na Nova Guiné, que faz com que os meninos fiquem separados das mulheres dos sete aos dezessete anos, por acreditar que elas são impuras. Não há fundamento algum, é apenas um costume seguido para manter inabalável uma verdade racionalmente frágil.

Trata-se de uma crítica clara do filme à crença religiosa: o fiel acolhe o dogma sustentado pela religião e ensinado pelo líder religioso sem questionar – ou às vezes sem nem entender -, acreditando simplesmente por acreditar. Migo talvez devesse duvidar de seus próprios sentidos, mantendo a confiabilidade das pedras. Entretanto, ele não consegue deixar de crer no que viu. Por sorte, ele encontra um grupo de teóricos conspiracionistas que são favoráveis ao raciocínio: para eles, questionamento leva a conhecimento, e, parafraseando Francis Bacon, conhecimento é poder. Não é a valorização do empírico, mas do que tem algum fundamento. Ao seu arco dramático de novos paradigmas se soma o arco dramático do “pé pequeno” Percy Patterson, uma espécie de Jeff Corwin que fica em dúvida entre ter fama ou manter a sua integridade enquanto figura pública.

O roteiro de Karey Kirkpatrick (em colaboração com Glenn Ficarra e John Requa) desvia um pouco do mote ao transmitir uma mensagem final de união e de aceitação das diferenças – o que não teria problema se não fosse outra a ideia governante. Porém, o texto é inteligente ao construir não um vilão, dentro do maniqueísmo que as animações costumam moldar, mas um antagonista, que acredita que a mentira é uma forma de proteção. O protagonista fica então dividido entre uma verdade desoladora e uma mentira reconfortante em um inteligente plot twist.

No humor, “Pé pequeno” usa um bode de maneira similar ao Scrat de “A era do gelo”, sem a mesma eficiência cômica. Muito mais interessante é o humor corporal que as personagens imprimem, no melhor estilo Looney Toones. Aliás, cabe elogiar o razoável nível das piadas do longa, que evitam a escatologia (que também existe, evidentemente, em medida diminuta) e apostam na comunicação não verbal.

Kirkpatrick apresenta ao público uma animação tecnicamente bem feita, como nas pelagens dos yetis, seres que aparentam grande diversidade – mudam a cor, o “cabelo”, os chifres e até mesmo as expressões. Ainda do ponto de vista visual, há uma referência ao clássico jogo “Pac-Man” em uma cena de fuga, destacando-se também o coerente design de produção. A estética acolhe, sem surpresa, cores frias, em especial o branco e o azul, todavia há um local belíssimo, que aparece mais de uma vez, com um céu âmbar e uma vegetação bem verde.

Merece destaque positivo a trilha musical do longa, bastante coerente com o plot, sustentando uma ideia inicial de que “nada vai mudar” para chegar em outra, de que “há mistérios para descobrir”. Um dos melhores momentos ocorre quando Percy faz uma versão de “Under pressure” (Queen), improvisando uma letra que se amolda à melodia. Com uma mensagem tão sagaz e uma referência musical consagrada, não se pode dizer que “Pé pequeno” é exclusivo para o público infantil. É um filme que vale a pena ser conhecido, pois “conhecimento é poder”.

Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.