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“PETS: A VIDA SECRETA DOS BICHOS 2” – Novo filme, novos problemas

Um dos piores defeitos de uma animação é acreditar que basta criar personagens fofos e colocá-los em uma história movimentada de cenário colorido para fornecer um bom filme. Essa crença atinge em cheio PETS: A VIDA SECRETA DOS BICHOS 2, em uma intensidade ainda maior que no antecessor, pois as qualidades antes existentes dão lugar a uma aventura episódica sem dinamismo, pouco humor e preenchida por um fiapo de trama que prejudica seus personagens.  

Cartaz de “Pets: A vida secreta dos bichos 2”

A continuação se inicia no mesmo prédio onde vivem Katie, Max e Duke, tendo como vizinhos a gata Chloe, a cadela Gidget e o coelho Snowball e outros animais. Inicialmente, todos os bichos de estimação vivem sua confortável rotina de interação entre si e brincadeiras com os donos, até que a realidade de Max e Duke muda profundamente: Katie se casa e tem um filho. A partir da chegada de uma criança no apartamento, os dois cães precisarão se habituar às mudança. Enquanto isso, os demais animais viverão suas próprias aventuras.  

Como a própria sinopse aponta, o filme se divide em três linhas narrativas. A primeira delas é protagonizada por Max, que passa por um conflito diferente daquele relacionado às diferenças entre domesticação e liberdade: lidar com os medos surgidos na vida fora da segurança do lar. O tema é apresentado e se desenvolve em torno da chegada de Liam, que, primeiramente, afeta Max por colocá-lo em um rotina agitada na qual a criança brinca descuidadamente com ele; com o crescimento do menino, a agitação diminui e o cão passa a gostar do carinho que recebe a ponto de considerar-se o protetor da criança. Tudo que se passa após a transformação no cão repete exaustivamente a mensagem de que ele deveria enfrentar seus medos e não se preocupar tanto com o filho de Katie (as sequências na rua, no veterinário e na fazenda não acrescentam nada muito diferente ao assunto). No arco de Max, há também a repetição escancarada de recursos narrativos do primeiro filme, como a montagem inicial com passagem de tempo e as perspectivas de cada animal do prédio.

A segunda linha narrativa se concentra na cadela Gidget, que precisa recuperar um brinquedo de Max perdido por ela mesma. Assim como acontecia no primeiro filme, os personagens coadjuvantes não são bem desenvolvidos ou, como acontece na continuação, passam por uma transformação radical. A cadela, antes descrita como forte, independente e destemida, aparece como dependente do cachorro protagonista e desprovida daquelas características intimidadoras responsáveis por fazê-la participar de brigas. Além disso, as sequências em torno dela insistem em piadas já feitas anteriormente sobre hábitos dos cães e gatos para criar humor (resultando apenas em uma sensação paupérrima de dejá vù) e em eventos exagerados nada compatíveis com o universo da produção (exemplificados pela presença e pelas ações de uma senhora dona de dezenas de gatos).   

Exageros semelhantes e descaracterização de personagens também estão presentes na terceira linha narrativa, voltada para o coelho Snowball. Ele deixou de ser o líder de uma gangue de animais, que planejava lutar contra os seres humanos em busca de liberdade total, para se tornar um bicho de estimação da garota Molly absolutamente satisfeito com essa vida – se houvesse ainda resquícios de sua antiga personalidade, seria mais provável justificar eventuais mudanças atravessadas. Em seu arco, o animal acredita ser um super-herói, ao invés de ter consciência que se trata apenas de uma brincadeira infantil, e se coloca à disposição para salvar animais em perigo. Quando sua missão envolve libertar um tigre da opressão que vive em um circo, muitos problemas são perceptíveis: tentativas de piadas falham consideravelmente, apesar de ser possível perceber cada momento em que se tentou produzir humor; o vilão é extremamente caricatural e deslocado da essência da história dado seu aspecto sombrio e violento; e as sequências de ação não transmitem o mesmo ritmo acelerado da produção anterior.

É na convergência das três linhas narrativas no terceiro ato que a animação reafirma suas fraquezas e insuficiências. As subtramas se encontram no momento em que o vilão precisa ser derrotado, porém a união dos animais para alcançar esse objetivo é feita de modo aleatório e sem construção ou preparação do roteiro e da direção, simplesmente colocando forçadamente todos os animais no mesmo cenário e desafio. Nos minutos finais, ocorre a maior sequência de ação envolvendo um resgate em um trem, não por méritos artísticos e estéticos, mas porque até então a ação era burocrática e o ritmo era composto lentamente por situações repetitivas e piadas fracassadas. Trata-se, então, de outra regressão em comparação com o filme anterior: aquele, ao menos, possuía um dinamismo que fazia o público se interessar por acompanhar a trama.

Fazer inúmeras críticas negativas a “Pets: A vida secreta dos bichos 2” não significa exigir que a animação seja complexa e apresente uma história profunda. Significa apontar que acumular piadas frágeis; criar conflitos que ficarão em aberto e mal desenvolvidos para os personagens; combinar elementos fantasiosos desconexos a situações realistas repetitivas; ignorar o (incipiente) universo construído no filme anterior; e tentar reunir tudo isso de qualquer maneira cria uma bagunça narrativa. Um número muito grande de novos problemas para a continuação.   

Um resultado de todos os filmes que já viu.