Nosso Cinema

A melhor fonte de críticas de cinema

“QUERO SER GRANDE” (1988) – Pequeno por dentro

Como uma fábula adocicada, QUERO SER GRANDE é um inofensivo feel good movie cujo plot foi aproveitado por diversas outras obras e cuja mensagem está presente em incontáveis outros filmes. Sem surpresas e sem assumir riscos, o longa marcou época mais por revelar uma futura estrela do que por virtudes intrínsecas.

O protagonista Josh é inicialmente um garoto de treze anos que é impedido de entrar em uma montanha-russa em razão da altura. Quando encontra uma máquina de desejos, pede para ser grande. Seu pedido é atendido e, no dia seguinte, ele se transforma em um homem de trinta anos. Por dentro, contudo, ele continua sendo uma criança desafiada a lidar precocemente com o mundo adulto.

Cartaz de “Quero ser grande

“Por dentro” é a chave para interpretar a película, embora o sentido não seja muito codificado: com o tempo, Josh se revela mais maduro do que alguns adultos, infantis “por dentro”. É o caso do vilão Paul (John Heard), que, além das maldades compatíveis com o antagonista, transforma uma competição esportiva em uma briga desproporcional (mas cômica, claro), escancarando a sua infantilidade a partir de uma trapaça. Josh, por outro lado, demonstra a honestidade típica de uma criança, não aceitando ser trapaceado.

Um aspecto interessante na trama é que, apesar de Josh ser o protagonista, o que ele vive não é uma transformação, mais uma aventura. Certamente ele aprende e amadurece na sua jornada, porém é Susan (Elizabeth Perkins), uma coadjuvante, quem realmente se transforma. É graças à infantilidade de Josh (no sentido positivo) que ela melhora como pessoa, ficando visivelmente mais feliz. A rigor, é a maneira como ele encara a vida que a faz enxergar a realidade com mais leveza e alegria. Ironicamente, ela vê um adulto nele quando o compara a Paul.

O roteiro de Gary Ross tem alguns problemas, pequenos, como uma ligação inverossímil à noite (que pesquisa seria feita à noite?) e a superficialidade com que os problemas vividos por Billy (Jared Rushton) são retratados (por que os pais dele discutem tanto?). Ainda assim, o texto consegue fazer piadas eficazes a partir da trama, que, por sua vez, enseja bastante humor – não por outra razão, a fórmula foi repetida com alguma qualidade outras vezes, como em “De repente trinta”. Fato é que a obra se tornou paradigma para tramas similares (em que o protagonista vira alguém mais velho).

Como não podia deixar de ser, o primeiro conflito da infância interior de Josh com a vida adulta se dá no trabalho, quando ele trabalha empolgado (o salário é sinônimo de euforia) e não entende quando um colega fala sobre os perigos de uma mulher. Considerando que, “por dentro”, ele ainda é uma criança, tem interesse em ver o sutiã das mulheres, mas encontra dificuldade no flerte. O script é coerente ao manter essa dificuldade para Josh, que, inclusive, se revela mais amedrontado que Billy. Este, na primeira parte do longa, é um conforto psicológico ao protagonista, ficando em segundo plano na medida em que o amigo abraça mais a vida adulta.

O filme é engraçado no texto, porém o humor mais intenso se revela na comédia corporal desempenhada por Tom Hanks. Na prática, Hanks foi revelado pelo longa, que lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Ator. Seus trabalhos anteriores foram bem menores, sendo essa a porta de entrada para o estrelato (todavia, o primeiro Oscar veio apenas em 1993, com “Filadélfia”). Em “Quero ser grande”, é difícil não rir com o comportamento de Josh na pele de Hanks, já que sua conduta continua sendo a da criança que “por dentro” ele é. Em uma limousine, ele precisa apertar todos os botões; quando senta em uma cadeira de escritório, encosta o quadril em cima dos calcanhares; quando come na companhia do amigo, não fica acanhado ao abrir a boca e mostrar o que está comendo. A contradição entre o corpo adulto do ator e o comportamento infantil da personagem é engraçado por si só.

O design de produção assinado por Santo Loquasto é destaque positivo, especialmente nos ambientes em que o ambiente tem relevante função narrativa. É o caso do hotel em que Josh se hospeda, cujas paredes sujas são suficientes para denotar a qualidade do local, e do apartamento adquirido por ele, perfeitamente compatível com a decoração que uma criança faria (por que uma cama de casal se era possível comprar um beliche!?). Na direção, Penny Marshall dá o tom leve que a narrativa exige, com auge na cena em que o protagonista adulto encontra a mãe e na que ele encontra MacMillan na loja – aliás, ele é o único capaz de valorizar o perfil do novo funcionário logo no início. A trilha musical de Howard Shore também ajuda nessa atmosfera pueril e aprazível pela leveza.

É verdade que “Quero ser grande” não tem a complexidade necessária para convidar o espectador a grandes reflexões. Porém, o filme proporciona boas risadas e – o que é melhor – recorda um lado da vida que merece ser explorado também pelos adultos, que podem ser crianças “por dentro” de vez em quando.

Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.