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“SICARIO: TERRA DE NINGUÉM” – A força de um diretor eclético

Denis Villeneuve é um dos diretores mais interessantes e competentes da atualidade, capaz de transitar entre gêneros e estilos diferentes e de filmar rapidamente. Em sua carreira, há um drama familiar com pano de fundo histórico (“Incêndios“), um drama de tons surrealistas (“O homem duplicado“), um suspense (“Os suspeitos“) e ficções científicas de estudo sociológico e filosófico (“A chegada” e “Blade Runner 2049“). A versatilidade do cineasta também aparece em SICARIO: TERRA DE NINGUÉM, filme de ação centrado na luta de agências norte-americanas contra cartéis mexicanos. Na fronteira entre EUA e México, a agente do FBI Kate entra numa força tarefa, composta por indivíduos enigmáticos, que age clandestinamente e de maneira questionável moralmente.

Não se trata de um longa metragem de ação típico de Hollywood, pois as sequências de maior adrenalina pontuam especificamente a narrativa a serviço dos temas desenvolvidos: os impactos da violência do mundo das drogas sobre a sociedade e como as autoridades responsáveis lidam com o problema. O roteiro trabalha tais questões através, principalmente, da justaposição de imagens violentas a momentos cotidianos da vida comum. Assim, os mexicanos da cidade de Juarez se veem próximos de homens enforcados e pendurados sobre uma ponte e ouvem sons de tiros enquanto crianças jogam futebol. Visualmente, Denis Villeneuve constrói enquadramentos realistas e viscerais para nos fazer sentir as consequências de tamanha brutalidade, a partir do uso de efeitos práticos e de planos longos – basta considerar a sequência inicial, quando a equipe de Kate invade uma casa de traficantes e é surpreendida por uma armadilha.

Em relação às autoridades que habitam esse universo, o filme também as utiliza para discutir como a violência pode fazer parte do modus operandi de policiais e agentes. Através do olhar de Kate, somos introduzidos a um conjunto de relações, estratégias e alianças que derrubam os conceitos de moralidade e ética e se tornam pragmáticas acerca do que é supostamente possível fazer na luta contra o tráfico. Além disso, não faltam personagens multifacetados e ambíguos que não se encaixam em maniqueísmos de bem ou mal, mocinhos ou vilões. Kate é obrigada a entender como interesses pessoais e nada ortodoxos podem movimentar operações militares através dos personagens de Matt Graver e Alejandro: os dois sujeitos, mesmo com personalidades distintas, não são transparentes em suas intenções e possuem uma visão muito própria e pessimista acerca do ambiente em que vivem – o diálogo final entre Kate e Alejandro é chocante por revelar uma verdade tão opressiva e desconfortável.

A complexidade na caracterização dos personagens não seria possível sem o elenco que a obra consegue reunir. O trio principal constrói um núcleo dramático heterogêneo, cada um deles tendo sua própria jornada individual: Emily Blunt, vivendo Kate Macer, demonstra a força e a disposição de sua personagem em combater o narcotráfico (inclusive, relegando sua vida pessoal a segundo plano) por uma trajetória que a afeta física e psicologicamente (observem que seu trabalho corporal revela grande cansaço pelo esforço feito e pelas agressões sofridas); Josh Brolin, vivendo Matt Graver, compõe um agente incomum já em sua primeira aparição (por estar numa reunião de chinelo), e de personalidade extrovertida e aparentemente simpática, porém escondendo um pragmatismo que não se furta a recorrer a violência, quando julga necessário, e a se satisfazer com objetivos duvidosos; e Benicio del Toro, vivendo Alejandro, cria uma figura absolutamente misteriosa de poucas palavras, de semblante fechado incapaz de revelar o que pensa ou sente (o uso constante de óculos escuros também ajuda a ocultar suas emoções) e, ainda assim, solitária e mergulhada em seu próprio sofrimento (reparem numa sequência em que parece ter tido um pesadelo) – especialmente, porque sua posição e seus interesses seguem uma trajetória particular não relacionada aos demais agentes e o fazem agir na máxima maquiavélica de que os fins justificam os meios.

A atmosfera na qual o filme se insere é produto da direção de Denis Villeneuve. O cineasta consegue manipular a tensão de modo impecável, construindo sequências de grande impacto dramático: a travessia da força-tarefa pela área de fronteira é ambientada num engarrafamento, onde a ameaça e a urgência estão presentes, e filmada alternando planos abertos da locação e planos fechados em cada personagem, além de uma montagem que, gradativamente, acelera o corte dos planos  – um recurso que nos coloca dentro do perigo do ataque, temido pela força-tarefa a todo instante; a sequência final num labirinto constrói sua tensão a partir da alternância entre imagens captadas pela visão noturna de capacetes usados pelos agentes e planos subjetivos do ponto de vista de cada personagem; e o clímax da jornada de Alejandro, tensa por utilizar as sombras da noite para ocultar elementos da narrativa.

Tecnicamente, ainda existem outros recursos importantes para a construção da tensão: a montagem de Joe Walker e a trilha sonora de Jóhann Jóhannsson ajudam a desenvolver gradualmente esse clima opressivo que se abate sobre os personagens, seja pelo revezamento entre planos abertos e fechados, seja pelo uso de acordes incômodos no desenho sonoro do filme; e a fotografia de Roger Deakins recorre a um filtro de luz sépia saturado para evocar a ambientação sufocante onde boa parte das sequências transcorre.

Sicario: Terra de ninguém” apenas desliza num pequeno arco envolvendo um policial e sua família, algo deslocado do restante do filme. Um pequeno deslize que não compromete a conclusão a que chegamos passadas as quase duas horas de projeção: Denis Villeneuve também pode fazer filmes de ação. E com grande competência.

Um resultado de todos os filmes que já viu.