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“SUBMERSÃO” – O fundo do mar e a Jihad

Romance, drama e suspense: é dessa mistura que resulta SUBMERSÃO, título do longa que incorpora o ato ou efeito de submergir no sentido literal e no metafórico. No primeiro caso, define-se como meter debaixo da água; no segundo, como ir para o fundo, tragar ou engolir. É isso que as personagens do filme fazem – o público, nem tanto.

O romance começa com a paixão veloz entre Danny e James; o drama prossegue enquanto eles se separam; e o suspense se refere aos seus arcos dramáticos pessoais. Ela é uma biomatemática (estuda a “ciência que existe no mar”), ele diz para ela que dá consultoria sobre projetos aquáticos para crianças em Nairóbi (Quênia) – porém, na verdade, ele é um espião a serviço do governo britânico, enviado à Somália para coletar informações sobre os jihadistas.

Tridimensional quanto ao conteúdo, na forma, é com coerência que sua montagem intercala várias narrativas. São elas: James antes de conhecer Danny, as primeiras interações entre os dois, James depois de se afastar de Danny e Danny depois de se afastar de James. Na primeira parte do filme, as duas primeiras narrativas se fazem mais presentes, tornando-se meras subjetividades mentais em flashbacks na segunda parte. Isto é, há uma primeira parte, que intercala pretérito (do casal se conhecendo até quando se separam) e presente (tudo que ocorre após a separação) diegéticos, seguida de uma parte que usa o pretérito diegético como ferramenta narrativa, aplicando flashbacks que se passam em suas mentes, como recordações dos bons momentos que viveram. A separação é prevista por ambos, contudo tem função essencial no roteiro.

Apesar da velocidade, a interação romântica do casal é orgânica e eles têm química. Os dois se dão bem através da provocação, pois ambos (ela mais que ele) têm falas bem afiadas. Nesse sentido, James McAvoy tem ótima interpretação ao incorporar a persona de James: dedicado no trabalho, apaixonadíssimo no romance e desnorteado no sofrimento – aliás, cada vez mais frágil. A caracterização do ator é bem convincente (o físico, a barba, a maquiagem e o figurino). Já Alicia Vinkander não tem a mesma sorte ao viver uma personagem pouco sociável (quando ele reclama do comportamento dela no início, é inequivocamente aquela brincadeira com fundo de verdade), o que, por outro lado, é coerente com o estereótipo da cientista prodigiosa. O problema está na frieza da atuação de Vikander, que soa como indiferença a quase tudo.

A direção é de Wim Wenders, responsável, dentre outros, pelo excelente “Paris, Texas”. Dessa vez, o cineasta não estava tão inspirado, salvo por um truque visual no prólogo e pelas rimas cênicas que ocorrem na segunda parte do longa (por exemplo, quando ele é jogado por uma escada, ela desce uma escada no navio em que trabalha). Há outra rima cinematográfica: Danny estuda a zona hadopelágica, expressão que remete a Hades (deus do mundo inferior e dos mortos); James está em um local que para ele é infernal e onde à morte espreita. A fotografia é brindada com cenários de uma beleza estonteante, em especial praias. Há também um acerto na filmagem de James encarcerado: com pouquíssima iluminação, torna-se visível apenas em razão de feixes externos de luz, de modo que os planos fechados intensificam a sensação de desconforto.

De todo modo, o desnível entre os arcos dramáticos de James e Danny é desconfortável. Ela tem um trabalho cujo objetivo é mergulhar nas profundezas marítimas, referência literal ao ato de submergir. O problema é que sua narrativa é desinteressante quando comparada à dele: ela revive mentalmente os momentos que passaram juntos e trabalha, sem progressão narrativa nem emoções intensas. James também está submerso, mas em sentido metafórico: ele é tragado por um universo sub-humano que reúne assassinatos, pobreza, doenças e escassez. Ele vai para o fundo de um local onde a religião é pretexto para atrocidades, ouvindo frases como “Jihad é vida” – paradoxalmente, justifica homicídios. Quando James conhece o dr. Shadid (Alexander Siddig), o longa fica muito mais instigante, com diálogos fascinantes e subtextos inteligentes – a crítica à ONU e (principalmente) à UNICEF, além de inesperada, tem uma lucidez ímpar (sem olvidar a temática que permeia o plot da personagem, que é a crueldade do islamismo na África subsaariana). É paradigmática a seguinte fala do médico: “medicina é misericórdia, Jihad é um dever”.

Não fosse o desnível entre os arcos dramáticos do casal, “Submersão” seria muito melhor. Embora a narrativa de Danny tenha relação mais clara (já que literal) com o título, é a de James que cativa o público. É verdade que o longa não consegue apontar o caminho certo, todavia age bem quando mostra os fatos sem mascaramento e quando convida o público para o seguinte debate: existe solução para o islamismo bélico?

Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.