Nosso Cinema

A melhor fonte de críticas de cinema

“THE PERFECTION” – De camada em camada

Cinéfilos nascidos até a década de 1990 tinham o costume de frequentar locadoras e também de descobrir nas prateleiras filmes pouco divulgados e, ainda assim, de grande valor cinematográfico. Em 2019, as antigas descobertas nas locadoras agora correspondem ao encontro de uma obra interessante em meio às incontáveis novas opções que chegam no catálogo da Netflix a todo mês. Essa experiência acontece com THE PERFECTION, a nova produção original do streaming que se mostra um suspense de qualidade (incomum) em um cenário de tantos projetos duvidosos da empresa.

Cartaz de “The perfection”

Trata-se de um suspense que não revela rapidamente o que é nem como são exatamente seus personagens, preferindo colocar o público em uma posição de surpresa e desconforto prolongado diante dos diferentes e conflitantes elementos que utiliza. Aparentemente, Charlotte (Allison Williams) era simplesmente uma jovem violoncelista de talento que precisou se ausentar da breve carreira para cuidar da saúde da mãe. Após a morte de sua genitora, Charlotte tenta retornar a área musical, porém encontra seu mentor Anton (Steven Weber) fascinado por uma nova violoncelista prodigiosa, Lizzie (Logan Browning). A situação inicial se desdobra em direção a rumos nada previsíveis e extremamente violentos.  

Mesmo não sendo possível antever o desenvolvimento do filme, o diretor Richard Shepard consegue nos primeiros minutos transmitir a sensação básica de sua narrativa: um desconforto construído continuamente aparentemente sem nenhuma razão definida. O sentimento é estabelecido por uma trilha sonora angustiante com notas agudas tocadas em progressão em cenas e diálogos triviais e pela inserção rápida de planos chocantes quando a protagonista está com o olhar perdido (pulsos sendo cortados, cabelos sendo raspados e uma aparelho de choque sendo usado). A atmosfera de mistério é evocada pelos recursos citados que sugerem a iminência de algo trágico,  outros tipos de insinuações ao redor da relação de Charlotte e Lizzie (no primeiro ato, há uma tensão entre elas que se desenvolve de formas variadas e sintetizada por suas interações muito peculiares) e por detalhes que parecem ser importantes (planos detalhe de tatuagens da clave de sol nas duas mulheres).

Além do estranhamento rapidamente construído, a narrativa também expõe aspectos importantes da trama de forma econômica e dinâmica. Os já referidos planos chocantes inseridos a partir de cortes abruptos podem parecer sem significado aparente, mas eles indicam experiências traumáticas ocorridas no passado de Charlotte que ainda reverberam em sua personalidade; outros planos demonstram rápida e intensamente as dificuldades de uma jovem que teve boa parte de sua vida destinada exclusivamente aos cuidados da mãe, através de closes ou planos detalhe do rosto da genitora falecida na cama, da cruz católica na parede, nos vidros de remédio próximos e no rosto sofrido da filha. Combinar o sentimento de desconforto com a rapidez da narrativa favorecem muito ao mistério.   

O retorno da protagonista ao mundo da música e a consciência de que seu mentor escolheu outra pupila para seu lugar poderia significar uma possibilidade dramática mais aparente para uma disputa entre as artistas. Entretanto, o rumo dos acontecimentos é surpreendentemente tenso e marcado por uma escala crescente de violência. Quando a trama enfim se revela, são traçadas as características de uma vingança violenta que possui distintas camadas e os riscos concernentes à busca da “perfeição” artística e às relações extremas entre mentores e pupilos. À medida que o roteiro revela seu conflito central, a produção aproxima elementos de drama, mistério e terror que tornam a violência gráfica e chocante, não só ilustrativa da revolta interna dos personagens como também do estilo de suspense que flerta com o trash e com o gore – a sequência passada em um ônibus em deslocamento exemplifica o desconforto emocional do início do enredo, assim como o desfecho ocorrido em uma escola de música retrata o impacto visual da violência com imagens perturbadoras.   

Ainda que o interesse primordial do filme seja construir uma experiência tensa que se revela gradualmente, outra questão também se apresenta: o caráter manipulativo da arte. A música tem seu sentido manipulado e desvirtuado pelos personagens, a ponto de criar conflitos dramáticos e atitudes cruéis, assim como a própria linguagem cinematográfica é manipulada visualmente pelos realizadores. Existe a opção por dividir a narrativa em quatro capítulos, retroceder a episódios já vistos para mostrar outro ponto de vista, congelar o tempo fílmico nos momentos de clímax e compor um padrão visual de grande profundidade de campo e beleza imagética nas apresentações musicais. Tais recursos possibilitam a criação de uma narrativa esteticamente agradável ao olhar, o que não deixa de ser uma contradição consciente com seu tema desagradável.   

Após somente noventa minutos, “The perfection” se coloca como um belo exemplar do suspense não precisando de uma história completamente original. Saber como trabalhar seu roteiro com a construção gradual de várias nuances e da tensão em escala crescente; explorar os subgêneros do terror psicológico, trash e gore de forma inesperada; e como potencializar as performances eficientes de Allison Williams, em uma interpretação de fortes emoções, porém internalizadas de modo nocivo, e de Logan Browning, em um desempenho emocional mais explícito, são pontos muito favoráveis a um filme sem tanta repercussão anterior. Ele assume um lugar muito peculiar de sucesso dentro da Netflix, porque abraça o incomum, o incômodo e o chocante com a disposição de satisfazer aos interessados por um suspense estranhamente bom.

Um resultado de todos os filmes que já viu.