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“UM FUNERAL EM FAMÍLIA” – Filme para masoquistas

Pense em um filme ruim. Agora multiplique sua má qualidade por mil. O resultado talvez seja uma fração da tortura que UM FUNERAL EM FAMÍLIA representa – certamente um dos piores filmes a que qualquer pessoa pode assistir na vida.

No longa, uma família está prestes a se reunir em razão do aniversário de casamento de um casal que a integra. Anthony, o marido, morre antes da festa. Madea, uma das convidadas, passa a ser a organizadora do funeral, precisando lidar com familiares problemáticos.

Cartaz de “Um funeral em família

O filme constitui um martírio incomparável durante suas quase duas horas de duração. Quase nada acontece no longa, exceto conversas sobre bobagens. Não existe uma narrativa propriamente dita, mas esquetes alongadas e reunidas pela montagem. Salvo, com muita boa vontade, a mensagem final enaltecendo a força feminina, tudo que o longa apresenta é péssimo.

Além do mencionado problema narrativo, a construção das personagens é pavorosa. Madea é a razoável no campo das ideias, mas que não consegue deixar de discutir com Joe, Hattie e Tia Bam. Joe é o idoso que só pensa em sexo e maconha, enquanto as outras duas parecem não pensar nada. Tio Heathrow reduz seu discurso à vontade em ter relações sexuais com todas as mulheres da casa e à sua condição física – ou seja, fala sobre incesto e satiriza as pessoas com deficiência.

Ao menos o filme é coerente com as atuações, que, quase na totalidade, são péssimas. É assustador pensar que as caretas ridículas de Patrice Lovely como Hattie são repetição do papel que ela já viveu anteriormente em outros filmes. Nessa “interpretação” – se é que é possível usar o termo para aquilo -, Lovely encarna e solidifica o conceito contemporâneo de “vergonha alheia”. Com um jeito artificial de andar e a boca torcida para tornar a personagem ridícula, ela é uma das que mais motiva o público a abandonar a sessão. Perto dela, a tia Bam de Cassi Davis quase não é tão ruim.

Tyler Perry é o grande nome do longa, como roteirista, produtor, protagonista e diretor – ofícios que ele executa da pior maneira possível. Anacrônico, Perry exagera em maquiagens (de má qualidade, diga-se de passagem) e próteses para fazer personagens distintas (Madea, Joe e Heathrow), algo que pode ter feito sucesso com Eddie Murphy há alguns anos, mas que é ultrapassado e de uma vulgaridade sem igual. Madea parece ser sua personagem favorita, já que tem, por assim dizer, um universo próprio. Talvez Perry não goste de si mesmo, já que, quando aparece sem maquiagem, faz uma personagem responsável por um moralismo patético. De tão pobres, os diálogos se tornam podres: é uma tolice imensurável falar sobre o politicamente correto de uma maneira tão chula. É difícil escolher a pior personagem dos quatro vividos por Perry.

Mesmo que Joe fosse engraçado como um idoso ex-cafetão, tarado e usuário de maconha – o que definitivamente não é -, a repetição desse perfil à exaustão é uma atrocidade contra qualquer espectador que tenha um cérebro minimamente funcional. As discussões de Perry consigo mesmo ou com as duas idosas (Hattie e Bam) soam intermináveis, um suplício inesquecível – no pior sentido da palavra.

No final, um subplot de triângulo amoroso toma a centralidade, como se o filme fosse um drama novelesco. As cenas são inverossímeis (o que aquele policial pateta fazia no carro antes de abordá-los? Por que demorou tanto?), mal construídas e de péssimo gosto cômico. Na direção, se episodicamente quase parece que Perry entende algo dessa área (como no establishing shot inicial e ao usar split screen em uma conversa de telefone), é uma questão de tempo para concluir que ferramentas técnicas são empregadas ao acaso (já que o primeiro é repetido equivocadamente, e o segundo, abandonado).

Não há nada que salve “Um funeral em família” da reprovação. A obra trata o espectador como idiota, desrespeitando-o continuadamente e por um tempo desproporcionalmente longo. É um filme para masoquistas.

*Excepcionalmente, esse filme não receberá nota alguma. O motivo? Ele é hors concours.

Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.