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“UM PEQUENO FAVOR” – Heterodoxo, com certeza

Heterodoxo: esse talvez seja o melhor adjetivo para UM PEQUENO FAVOR. Quando termina, o filme deixa uma sensação de leve incompreensão das sensações que ele transmite, além de dúvida quanto às suas qualidades. A única certeza é que não se trata de um filme comum.

O longa é protagonizado por Stephanie, uma jovem que se divide entre cuidar do filho e gravar para seu vlog sobre maternidade. Repentinamente, Emily, sua melhor amiga, desaparece sem dar explicação, deixando o próprio filho aos cuidados da protagonista. É nesse momento que Stephanie passa a investigar o sumiço e descobrir que não sabia nada sobre a amiga.

O plot, em seu núcleo, lembra um pouco roteiros como os de “A garota no trem” e “Garota exemplar”, estando atrás deste e à frente daquele em termos qualitativos. A questão da maternidade é a mais saliente, tanto na ideia governante do roteiro quanto em pequenos detalhes (o sobrenome da protagonista, Smothers, não é à toa). Stephanie e Emily têm em comum apenas o fato de serem mães: em todos os demais aspectos parecem tão diferentes que a amizade quase não faz sentido.

A personalidade firme e quase unidimensional de Emily não permitiu a Blake Lavely dar nuances à personagem. Trata-se de uma mulher extremamente elegante e misteriosa – a entrada na chuva em slow motion e com demora para mostrar seu rosto reforça essas características -, que usa do sarcasmo e da impaciência para ocultar diversos segredos. Quando ela diz que “puritano também é gente”, se refere a muito mais que a integridade moral de Stephanie.

Diversamente, Anna Kendrick tem na protagonista a oportunidade de transitar entre o puritanismo aparente e a sagacidade latente. Mãe ativa e dedicada, é participativa na escola do filho; insegura, insiste em pedidos de desculpas e faz questão de demonstrar afeto (as pulseiras da amizade, uma arma de Chekhov do roteiro). É nela que repousam as sugestões religiosas do texto – é chamada de santa, seria pintada “beatificada”, descobre o acampamento bíblico etc. -, contrapostas a uma sexualidade surpreendentemente voraz. Isto é, Stephanie não é exatamente como parece, de modo que Kendrick consegue fazer a revelação de maneira orgânica, sem soar incoerente. E mais: não há maniqueísmo.

Não é difícil perceber que as mulheres dominam “Um pequeno favor”. As atuações convincentes de Kendrick e Lively certamente são resultado do bom trabalho de Allison Jones na direção do elenco. Sean (Henry Golding), marido de Emily, tem função central na trama, mas não apresenta grande desenvolvimento enquanto personagem. O figurino é uma maneira eloquente de contrapor a dupla principal: Stephanie usa um vestuário bastante colorido (sempre de cores vivas) e que esconde muito seu corpo, eventualmente até mesmo com um look um pouco infantil (destaque para as indiscretas meias), abusando de estampas; já Emily prefere terninhos de cores sóbrias e impessoais, roupas justas que delineiam bem o seu corpo.

O design de produção do longa acompanha a contraposição entre Emily e Stephania: a casa da primeira tem um visual moderno, porém adota cores frias, como branco, azul e cinza; enquanto a da segunda prefere tons discretos, como amarelo e pastel, uma arquitetura bem mais modesta e, para enfatizar a maternidade, com vários desenhos infantis pendurados em diversos lugares (em armários e na geladeira em especial).

A direção da película coube a Paul Feig, um cineasta prolífico na comédia nos últimos anos – ele dirigiu o sucesso “Missão madrinha de casamento”, “As bem armadas”, “A espiã que sabia de menos” e “Caça-fantasmas”. Sua direção é dinâmica e imprime um ritmo veloz ao longa (o que é quase uma exigência da sinuosa narrativa). Visualmente, há um contrassenso entre exibir o quadro de Emily, elemento com diversas funções na obra, e a verbalização da piada com a salada caesar (que dispensava tamanha didática). No estilo da franquia 007, Feig dá pistas da sua obra logo nos minutos iniciais, ao exibir recortes imagéticos ao som da sugestiva “Comment te dire adieu” (“como te dizer adeus”, em tradução livre), de Françoise Hardy.

Aliás, a trilha musical conta com as elogiáveis escolhas de Theodore Shapiro: diversas músicas francesas, como o pop de Brigitte Bardot (“Une histoire de plage”, “La madrague”  e “Bonnie and Clyde”), a já consagrada “Mambo No. 5 (a little bit of…)”, de Lou Bega, e muitas autorais de Shapiro. É muito bom o uso de canções intradiegéticas, porém elas servem muito mais para criar uma atmosfera do que na condução da narrativa.

Escrito por Jessica Sharzer a partir do livro homônimo de Darcey Bell, “Um simples favor”, o roteiro é repleto de idiossincrasias, tornando o desfecho um pouco decepcionante. Entretanto, ele é corajoso ao ser construído por vários pontos de virada, que não se referem exatamente ao plot, mas à maneira como o espectador encara (e, portanto, reage a) a trama. Instigante, o texto deixa o público curioso para saber os caminhos que vai tomar, além de percorrer gêneros distintos. Começando como um suspense mais tradicional, ganha um viés dramático quando Stephanie tira foto de Emily, acena para o thriller na cena do closet e consegue ter momentos de comédia. As reviravoltas são verdadeiramente surpreendentes, mas podem incomodar por ocorrerem em sequência. Todavia, o esforço do longa em ser original é recompensado com um êxito inquestionável.

Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.