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“VELVET BUZZSAW” – A arte é perigosa

Existe uma arte pura e ideal? Como sua criação e seus significados são operados? Como galerias e museus afetam o trabalho artístico? De que forma críticos de arte participam da significação de obras culturais? De que maneira o artista imprime sua marca em sua criação? A monetização das atividades artísticas provoca apenas prejuízos? Tais questionamentos movem VELVET BUZZSAW, nova produção original Netflix  roteirizada e dirigida por Dan Gilroy, de modo irregular entre ideias interessantes e uma narrativa pouco excitante.

Cartaz de “Velvet Buzzsaw

O longa mostra o cotidiano e as contradições do mundo das artes a partir da perspectiva do crítico Morf, da representante Rhodora e da assistente Josephina. Quando os três passam a explorar as pinturas de um misterioso artista recém-falecido, as consequências serão trágicas com as próprias obras artísticas se voltando violentamente contra eles. A estrutura dramática do filme mescla elementos de terror e comédia para abordar a relação entre o fazer artístico e o consumo: sequências de terror sobrenatural, que se relacionam com o passado perturbador do artista descoberto ocasionalmente, e passagens cômicas, que insinuam ironias ácidas sobre o mundo das artes e seus personagens.

Os primeiros minutos da trama se dedicam à construção do humor pelo sarcasmo. Morf se contradiz frequentemente em relação à sua concepção do trabalho de crítico (em determinados momentos, é arrogante, como quando diz “minha crítica melhora o que analiso”, em outros, é autodepreciativo, como quando afirma “a crítica é limitadora e desgastante”) e molda suas avaliações não por conta do valor artístico das obras, mas sim por interesses pessoais; Rhodora e Gretchen trabalham como representantes e consultoras de arte com o objetivo de buscar apenas lucro e a superação de possíveis adversários no mercado; Josephina pretende ascender na área para obter prestígio pessoal, não se preocupando com a importância da arte; o pintor Piers sofre de uma crise de criatividade por ter perdido o prazer devido às influências do mercado em seu trabalho. Além disso, a arte abstrata e conceitual é ironizada em cenas que confundem objetos banais com propostas artísticas.    

As atuações também ressaltam o tom irônico, apesar do pouco destaque ou tempo de tela de alguns atores para criarem seus personagens: Jake Gyllenhaal tem uma performance afetada com trejeitos corporais muitos refinados, dando-lhe uma postura autoconfiante, e expressões faciais exageradas; Rene Russo transmite a elevada ambição através do olhar cínico com que trata pessoas que inferioriza e da postura corporal muito ereta e esnobe; John Malkovich não tem tanta oportunidade para desenvolver o pintor em crise existencial com sua profissão, assim como Toni Collette para construir uma consultora de arte ávida pela prosperidade econômica e pelo status social. Cada um desses arcos precisaria ser desenvolvido, porém o ritmo oscila entre repetições de temas previsíveis e subtramas que tangenciam o conflito principal – a montagem alternada entre os núcleos é desequilibrada e prejudica o elenco.

Enquanto isso, o terror é construído de modo convencional do ponto de vista estético, contudo marca um padrão visual: o enquadramento aberto gradualmente se fecha em torno do personagem ameaçado de ataque; o ambiente escurece com uma iluminação soturna, geralmente à noite; e a trilha sonora adota acordes espectrais e angustiantes. O pânico também se manifesta graças aos elementos incomuns usados para fazer as pinturas e aos aspectos fantasmagóricos inseridos na narrativa. Mesmo durante as sequências em que predomina a atmosfera de mistério e terror, o filme ainda apresenta piadas, dentre elas a recorrente assistente que descobre vários corpos das vítimas.       

Da convergência entre o terror e a comédia, surge a questão da marca do autor em suas produções. Sob uma roupagem imaginativa e assustadora, a narrativa afirma que existe o “espírito” do criador dentro da sua obra, decidido a perseguir aqueles que maculam a arte. Entretanto, a diegese abre problemas na forma como lida com seu tema: a personalidade e a vivência do autor parecem se confundir automaticamente com a arte, como se fossem os mesmos; os significados da obra aparentam ser moldados apenas pela leitura do próprio autor, sem considerar as interpretações da recepção; e o mercado de artes parece ser demonizado, como se a criação artística por si só já bastasse e não precisasse se preocupar com a circulação da obra.

Ainda que “Velvet Buzzsaw” traduza visualmente a força magnética das pinturas do artista recém-descoberto através de fortes traços provocativos, o filme peca na organização de sua própria linguagem. A mensagem central perpassa por questões importantes, como a complexidade da relação entre arte, artista e consumidores, porém ela não se destaca como um todo em uma narrativa sem brilho. O maniqueísmo utilizado no tratamento dos personagens, o tempo desbalanceado entre o terror e a comédia e a falta de inspiração nos planos e enquadramentos da direção de Dan Gilroy produzem um tipo de arte mediana, algo que criadores, críticos e espectadores também estão sujeitos a consumir e conhecer.

Um resultado de todos os filmes que já viu.