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“YOU” – Obsessões na era digital

YOU chegou ao catálogo da Netflix no fim de 2018 disposta a entrar em rodas de conversas de amigos e em canais da crítica especializada com seu tema controverso e igualmente necessário. A série se inicia quando uma aspirante à escritora, Guinevere Beck, entra em uma livraria em Nova York e conhece o gerente Joe Goldberg; após esse encontro casual, Joe tem certeza de que Beck é a garota dos seus sonhos e fará de tudo para conquistá-la, inclusive invadir seus perfis nas redes sociais, segui-la, descobrir seus hábitos e afastar qualquer obstáculo ao seu objetivo.

 Não apenas o tema gera controvérsias como também sua abordagem. Acompanhar a narrativa, em sua quase totalidade, pela perspectiva de Joe, oferece riscos aos criadores da produção. Os primeiros problemas são observados no primeiro episódio, quando falta sutileza e moderação para evitar que a obsessão e a violência crescentes do protagonista não se atropelem em uma sucessão de fatos acelerados – a sensação é de que os criadores desejavam mostrar tudo de que eram capazes imediatamente. Parte desses dois problemas está ligado ao excesso de narração em off dos pensamentos de Joe: muitas sequências são conduzidas com o recurso sobreposto às imagens de perseguição a Beck e de busca por informações íntimas – quando usado pontualmente como forma de ironia, ele funciona, entretanto a repetição o desgasta.

A mesma falta de sutileza é evidenciada por outros aspectos narrativos: a primeira cena já é dirigida como se fosse uma perseguição, tendo Joe (fora de foco) à espreita, olhando Beck por trás de prateleiras da livraria; a trilha sonora abusa de acordes que transmitem o suspense do que está prestes a acontecer; muitas sequências de perseguição são inverossímeis porque Joe poderia ser visto e não é (algo recorrente em toda a série); e um excesso de diálogos irônicos sobre as contradições entre o que o protagonista faz e diz a outros personagens (por exemplo, quando conversa com Paco, um garoto que mora ao lado do seu apartamento, sobre um livro que justifica a monstruosidade de um vilão – referência nada sutil ao próprio Joe).

Ainda assim, há alguns pontos positivos no primeiro episódio que são reforçados posteriormente. Um dos traços da personalidade de Joe é mostrado com muita eficiência através da narração em off: sua elevada capacidade de dedução a partir de comportamentos banais das pessoas. Além disso, os recursos tecnológicos e as redes sociais estão muito bem integrados à narrativa, não apenas exibindo suas funcionalidades no canto da tela (troca de mensagem pelo Whatsapp, visualização de imagens no Instagram e no Facebook…), mas também apontando como essas novas tecnologias podem ser usadas como mecanismos de manipulação, monitoramento e autopromoção de uma imagem pessoal falsa e artificial.

Quando chega ao quarto episódio, a série passa por uma reviravolta revigorante. A rapidez anterior é diluída e a narrativa encontra um tom mais moderado para seguir as atitudes obsessivas de Joe, determinado a convencer Beck de que seria o namorado ideal e a acabar com qualquer ameaça que se interponha ao seu amor doentio – para isso, continua invadindo a privacidade da jovem, a seguindo e também praticando atos de violência em nome do que julga ser o melhor para ela). Focalizar um relacionamento tóxico a partir do olhar de um homem obsessivo, doente e stalker é uma forma contundente de estimular reflexões sobre relacionamentos sadios ou não, além de evidenciar o raciocínio extremamente perturbado de pessoas que não percebem o mal que provocam.

A sequência de capítulos até o desfecho da obra consegue manter uma qualidade muito coesa, especialmente por ter contornado problemas anteriores. A reinvenção constante leva a narrativa por rotas inesperadas e instigantes, confere à narração em off usos criativos, diminui a quantidade de diálogos irônicos e oferece mais espaço para personagens secundários e seus próprios arcos (dentre eles, estão o menino Paco, que sofre com o padrasto violento, e as amigas de Beck, que possuem seus próprios dramas). A conclusão de cada episódio com um cliffhanger diferente e impactante é outra ferramenta que evolui com o tempo e ajuda o público se sentir mais interessado em acompanhar a história.         

Os dois protagonistas também são beneficiados com as mudanças ocorridas. Apesar de Joe ser predominantemente um personagem unidimensional (por falhas dos primeiros episódios e pela atuação de Penn Badgley, que apenas transmite a sociopatia do homem, mas não seu carisma), outras nuances sutis são agregadas a ele (a preocupação com Paco e os sofrimentos mal resolvidos de seu passado são algumas delas). Mas, de fato, quem mais sai ganhando é Beck, vivida por Elizabeth Lail: a atriz consegue explorar sua personagem multifacetada que tem frustrações e ressentimentos familiares interiorizados, uma insegurança quanto ao risco de fracassar na carreira de escritora e uma dependência emocional nociva em relação às amigas).

A humanização de Joe feita por “You” não é a aceitação do que ele fez, mas sim o esforço em não transformar essas pessoas em monstros inumanos. São indivíduos reais que, em alguma parte de suas vidas, tiveram suas visões de mundo distorcidas e reproduzem ações e gestos perigosos, doentios e obsessivos. Uma série que apresente uma evolução narrativa e aborde temas como dependência emocional, ciúme, obsessões, sujeição à tecnologia e valores em um relacionamento tem o seu valor.          

Um resultado de todos os filmes que já viu.