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“BIG LITTLE LIES” [2×03] – Mundos em alerta

Este texto se refere ao TERCEIRO EPISÓDIO da SEGUNDA TEMPORADA da série. Clique aqui para ler o texto do segundo episódio.

O título “The end of the world” do terceiro episódio se relaciona com o tema de uma das aulas da segunda série do colégio de Monterey: os efeitos das mudanças climáticas no planeta e os riscos de destruição por elas provocadas. Uma questão tão importante como essa transborda o ambiente de sala de aula para mostrar, metaforicamente, como os mundos de cada personagem também estão sob alerta e abalados pelos fatores que podem causar sua destruição simbólica. Mesmo conseguindo articular um evento micro aos conflitos mais amplos das mulheres protagonistas, faltam ajustes no encadeamento narrativo de todos os arcos.  

Cartaz da segunda temporada de “Big little lies”

O assunto abordado pelo professor com os alunos desencadeia a insatisfação das mães, que se deparam com as aflições dos filhos quanto às ameaças ao planeta – a fala de Madeline no auditório do colégio representa como os indivíduos se protegem em torno de um castelo de ilusões e colocam seus filhos ali dentro para não fazê-los encarar tão cedo os sofrimentos e as infelicidades da vida. Duas personagens retratam de forma nítida os perigos de desmoronamento de suas realidades para suas descendentes: Renata, em choque constante com seu marido por razões financeiras, afeta sua filha Amabella, até que seu nível de estresse a faz ter uma crise de ansiedade na escola (o que é mostrado nas cenas no hospital pelo médico e na sua casa pela psicóloga); e Mary Louise, através de sua personalidade ardilosa e cínica e das constantes armadilhas que joga para as demais personagens, tenta compreender o que aconteceu a Perry e defende a imagem do filho (nas conversas com Jane e Celeste, ela sempre procura justificar as ações de Perry transferindo a culpa para outras pessoas).      

Três outras mulheres importantes na série atravessam suas próprias crises, vendo seus mundos prestes a “acabar” nos relacionamentos amorosos e sociais que possuem. Jane, além de ser questionada por Mary Louise sobre o estupro que sofreu e das investidas da senhora para conhecer Ziggy, tem dificuldades em se relacionar com um colega de trabalho que a chama para sair e demonstra seu interesse por ela – no momento em que ele tenta beijá-la, a reação instantânea de Jane é se afastar e impedir o beijo em função do trauma deixado por Perry. Madeline sofre com a possibilidade de se separar de Ed por conta de sua infidelidade, por isso se esforça para preservar o casamento, conversando com ele (mesmo sem sucesso) e fazendo uma terapia de casal (cena em que a psicóloga sugere que Madeline pode ter ressentimentos antigos ligados ao fato de não ter passado pela universidade). E Celeste continua sua jornada de enfrentamento das memórias de Perry, acreditando que pode manter suas lembranças positivas do marido intactas da violência que sofria, apesar das repreensões da terapeuta, e que ela somente seria uma boa mãe na presença de Perry.

O terceiro episódio poderia parecer, no mínimo, eficiente por conseguir relacionar um incidente aparentemente banal com os importantes conflitos das cinco mulheres. Entretanto, há um problema na narrativa no que se refere à montagem dos diferentes núcleos porque a trama salta rapidamente entre cenas em ambientes e temporalidades muito diferentes, por vezes com os mesmos personagens estando em um local de dia e no momento seguinte em outro local à noite. Esse aspecto cria alguns defeitos: as sequências são muito breves e concluídas inesperadamente sem tanta força dramática; as personagens são desperdiçadas pelo pouco tempo de tela, especialmente Mary Louise que já poderia ter mais espaço para mover a história; e o roteiro exibe suas limitações ao não ter o apoio de um material original para se desenvolver, ficando assim mais simples e abreviado. Acima de tudo, o problema da montagem faz com que o terceiro episódio retroceda o desenvolvimento dramático de BIG LITTLE LIES, ao invés de colocar a trama em um patamar mais avançado e intenso.  

Um resultado de todos os filmes que já viu.