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“BIG LITTLE LIES” [2X06] – Caminhos que se cruzam

* Este texto se refere ao SEXTO EPISÓDIO da SEGUNDA TEMPORADA da série. Clique aqui para ler o texto do quinto episódio.

Os últimos episódios da terceira temporada de BIG LITLLE LIES           haviam apresentado uma queda de ritmo e construção narrativa, especialmente o quinto. “The bad mother“, porém, sugere uma recuperação gradual da alta qualidade da série, fechando o cerco sobre os dois conflitos dramáticos deste segundo ano e provocando disputas sérias entre, de um lado, Madeline, Celeste, Jane, Bonnie e Renata e, de outro, Mary Louise. Ainda é algo gradual, pois os problemas de encadeamento dos diferentes núcleos persiste em uma montagem acelerada e geograficamente dispersa.

Cartaz da segunda temporada de “Big little lies”

O sexto episódio faz a produção se reencontrar com seus méritos artísticos ao conectar dois tipos de investigação conduzidos pelo roteiro: aquela herdada da temporada anterior feita pela política e integrada por Mary Louise para elucidar o falecimento de Perry, assim como a nova iniciada há pouco tempo pela Justiça para definir a guarda judicial de Max e Josh. O esclarecimento da morte de Perry parece cada vez mais iminente, devido às pressões feitas pela polícia e por Mary Louise sobre diferentes personagens e situações (a averiguação das contradições nos depoimentos de Celeste e a convocação de Corey para depor fazem com que as cinco mulheres se reúnam para decidir o que fazer). Já a sessão pela guarda das crianças desemboca em dois momentos dramáticos em que Celeste é questionada pela juíza e pelo promotor sobre seu relacionamento com o marido e sobre o desfecho trágico dele. O entrelaçamento dos dois conflitos, enfim, dá a sensação de movimento para a série e de crescimento dramatúrgico.   

Os personagens também se beneficiam da curva dramática mais apurada estabelecida pelo texto. Eles apresentam evoluções em seus arcos e deixam de continuar no mesmo estágio inalterado como em episódios anteriores, com destaque para Bonnie e Celeste, as duas mulheres que servem como base para “The bad mother“. A primeira finalmente revela para alguém, mesmo sendo a mãe desacordada, que empurrou Perry para a morte como um reflexo de sua infância dolorosa – os embates internos no tribunal e no hospital até a revelação são traduzidos com um simplicidade eficiente por Zoë Kravitz -; já a segunda expõe claramente as fragilidades e cicatrizes de uma mãe e de uma mulher sob pressão quando vê expostas as suas intimidades e seus sentimentos em um julgamento – as duas cenas de depoimento perante a juíza são interpretadas com a força e com as vulnerabilidades compatíveis com o momento por uma excelente Nicole Kidman.   

O resgate das virtudes da produção apenas não é completo por conta da montagem dos primeiros minutos desse capítulo. O texto até se desenvolve um pouco mais para não se concluir tão apressadamente em cada sequência, mas o encadeamento das cenas continua merecendo mais cuidado para realizar transições fluidas entre os núcleos. Especialmente no início do episódio, as passagens temporais e geográficas são feitas abruptamente, criando instantes problemáticos em que personagens se deslocam de um ambiente para outro, do dia para a noite, sem que haja uma costura entre essas mudanças. Tal problema quase compromete o arco de Madeline e de seu casamento em ruínas, graças à aproximação entre Ed e outra mulher, e o arco de Jane e dos embates com Mary Louise e seu passado, que afetam Ziggy.

Ainda que a organização da narrativa possa melhorar, o roteiro subiu alguns degraus suficientes para tornar “The bad mother” um bom episódio. A montagem ainda carece de elementos e fluidez que associe as cenas, indique a passagem de uma para outra e explore o potencial dos flashbacks e das imagens das ondas se chocando contra a praia. Enquanto isso, o roteiro, enfim, mostrou a contento a nova perspectiva colocada à série: menos mistério e reviravoltas para algo que precisa ser decifrado e mais conflitos interpessoais entre as cinco mulheres e Mary Louise e lutas internas nas condições dos personagens. Nesse sentido, há um bom cliffhanger para gerar expectativas para o encerramento de “Big little lies” na próxima semana – um gancho que valoriza mais o drama do que o suspense.

Um resultado de todos os filmes que já viu.