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Hollywood e seu fetiche pela máfia

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Algumas ofertas simplesmente não podem ser recusadas. No final de 1971, Francis Ford Coppola era um jovem diretor de 33 anos e com pouca relevância em Hollywood. Ele foi convidado para dirigir um filme, com roteiro baseado num livro de Mario Puzzo. Era uma obra sobre uma família de mafiosos, mas ele não se interessou pela ideia. Tinha mais interesse em trabalhar com suas obras independentes e autorais como “Caminhos mal traçados”. Alguns amigos (em especial George Lucas), vendo ali a oportunidade de ganharem destaque como uma nova geração, que surgia num período em que o cinema hollywoodiano começava a se recuperar, convenceram Coppola a aceitar a direção de “O poderoso chefão”, que estava sendo produzido pela Universal Studios e viria a se tornar o maior símbolo cinematográfico sobre a máfia. Mas a história não começa aí.

Talvez poucos saibam, mas o império hollywoodiano se deve, em parte, ao crime organizado. Muito antes do glamour, quando os primeiros cinematógrafos e afins desembarcaram no continente americano, Nova York havia surgido como possível polo para o cinema. Com o passar do tempo, a Motion Picture Patents Company* (MPPC) começou a patentear diversos produtos ligados à produção cinematográfica, como câmeras e rolos de filmes.

Por mero acaso (ou não), no início da década de 1910, o diretor e produtor, D. W. Griffith, dirigia seu primeiro filme em terras californianas (“In old California”). Somado ao elevado custo de produção em Nova York, diversos estúdio que não pertenciam ao truste da MPPC, viram uma oportunidade de fugir do monopólio comandado por Thomas Edison e mudaram-se para o então recente distrito de Hollywood, onde as patentes da MPPC não tinham efeitos e os equipamentos poderiam ser conseguidos de formas ilegais, longe dos olhos da lei.

Mas a máfia chegou ao cinema antes ainda. Em 1906, o diretor Wallace McCutcheon lançava “A mão negra”. O filme é o primeiro registro conhecido no cinema de algo que se aproxima de uma organização criminosa. Porém, a qualidade técnica e narrativa do filme fazem com que sua menção seja puramente honrosa.

A primeira fase do cinema, com seus curta-metragens mudos e pouco rigor estético/técnico, ainda entregou outras obras como “The musketeers of Pig Alley” de D. W. Griffith. Mas foi somente na década de 1930 que a temática surgiu quase como um novo gênero.

Inimigo público”, de 1931 e dirigido por William A. Wellman, “Scarface – A vergonha de uma nação”, de 1932, com direção de Howard Hawks e “Anjos de cara suja”, de 1938 e direção assinada por Michael Curtiz, são certamente algumas das mais preciosas obras sobre a máfia da geração que antecede o cinema noir. São filmes que vão direto ao ponto, sem criar situações. Mas é importante ressaltar que, até o surgimento da Nova Hollywood, a máfia era vista de forma romântica, mesmo que não exaltada.

O citado cinema noir foi outro momento relevante para o tema. Entre as décadas de 1940 e 1950, Hollywood lançava semanalmente filmes com fotografia carregada e fortemente influenciada pelo cinema expressionista alemão. Os detetives durões e as femmes fatales foram símbolos de desejo e inspiração. Novamente, tudo girava em torno de algum grupo de bandidos que mexiam com a pessoa errada. O olhar para a máfia pode até não ser o mais positivo, mas certamente não era de condenação.

O último grande representante desta geração é o clássico “Sindicato de ladrões”, de 1954. Dirigido por Elia Kazan, o filme lança um olhar honesto ao grupo criminoso. Se eles não são fetichizados, certamente possuem uma importância para a comunidade local. Cabe então a Edie Doyle (interpretada de forma impecável por Eva Marie Saint) convencer Terry Malloy (Marlon Brando) de que o crime não compensa. Este, por sua vez, é a personificação da imagem ambígua do crime – ao menos pelo olhar que Hollywood lança ao crime. Ele é ingênuo, mas não se importa muito com as consequências de seus atos. Busca redenção, mas se corrompe. Quer salvar, mas precisa ser salvo.

Foi somente em 1967 que Arthur Penn decidiu mostrar que não há nenhuma beleza poética na máfia – e que crimes violentos são simplesmente crimes violentos. “Bonnie e Clyde” talvez não seja essencialmente um filme sobre a máfia. Trata-se de um casal que optou por viver perigosamente. O crime os excita (talvez mais ela do que ele, o que não deixa de ser sugestivo) e não há nenhum interesse ambíguo ali, somente o fascínio por não seguir as regras da sociedade.

Por mais que não represente a máfia de maneira literal, “Bonnie e Clyde” abriu caminho para o crime voltar aos cinemas. E dessa vez ele viria com a violência. O filme também é um marco para o nascimento da Nova Hollywood, que se destacaria com diretores como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese e Brian De Palma. Eles seriam responsáveis por alguns dos filmes mais emblemáticos sobre a máfia, tendo sido Scorsese o mais enfático nesse sentido.

Coube a Coppola o olhar mais significativo. A família Corleone retoma a concepção de máfia com responsabilidade. Mas tudo é feito na base da imperfeição. Não se pode ser completo no crime e na vida social. Existem problemas com outros grupos de mafiosos, mas não lhes falta comodidade. Quando assumem a liderança na máfia, os problemas em casa se mostram mais evidentes. O conceito de máfia apresentado por Coppola é bonito, mas no fundo ele é podre e sujo. É a cara da nova máfia.

Poucos conheceram o submundo do crime como Martin Scorsese. Desde sua infância, ele testemunhou na sua família o poder e as consequências do crime. Seus filmes refletem isso de modo cru. Scorsese dirige uma realidade que conheceu de perto. De “Gangues de Nova York” a “Os infiltrados”, ao longo da carreira o diretor traçou o caminho do crime nos Estados Unidos. Das fundações que deram origem às principais facções criminosas do leste do país à violência irlandesa da máfia em Bostonele realmente sabe do que está falando.

O último movimento, e que se mantém representativo, embora mais discreto, é feito por uma (não mais tão) nova geração de diretores, que lança um olhar mais artístico e autoral. Quentin Tarantino não se preocupa com as bases históricas em seu “Cães de aluguel” ou “Pulp fiction”. Já os Irmãos Coen ignoram a história no maravilhoso “Ajuste final”. O crime ganhou novos contornos, novos representantes, novos olhares. Às vezes, ele permanece mais discreto, mas, como na vida real, nunca desaparece, afinal, Hollywood nunca escondeu seu fetiche pela máfia. Todas as máfias.

*A MPPC era um conglomerado de produtoras e distribuidoras cinematográficas com origem em 1908 e liderada pelo Edison Studios, de Thomas Edison. Sua sede ficava em Nova Jersey.

Estudante de jornalismo, cinéfilo e escritor nas horas vagas. Apaixonado por cerveja, café e literatura sci-fi e policial. Acredita na honestidade dos filmes ruins e que Ringo Starr sempre foi o melhor dos Beatles.