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“MIB: HOMENS DE PRETO 3” – Reencontrando sua essência

* Clique aqui para ler a nossa crítica do primeiro filme, de 1997.

* Clique aqui para ler a nossa crítica do segundo filme, de 2002.

Ao reunir Will Smith e Tommy Lee Jones em 1997, Barry Sonnenfeld criou uma comédia de ação sci-fi que se comprometia com a diversão acima de tudo. Se, por um lado, o filme original cumpriu seu objetivo, a continuação derrapou com uma trama e gags visuais recicladas de seu predecessor. Desse modo, foi renovador para a trilogia o lançamento de MIB: HOMENS DE PRETO 3 e o reencontro com sua essência de diferentes gêneros a partir de uma história realmente nova.

O terceiro filme da franquia se inicia quando Boris, o Animal, foge da prisão de segurança máxima na Lua. Após escapar, ele arquiteta um plano para se vingar do agente K, o responsável por sua captura no passado. Para isso, pretende viajar no tempo e mudar o rumo dos acontecimentos, matando seu algoz ainda jovem. Ao mesmo tempo, o agente J também retorna para o passado para evitar o triunfo do vilão e encontra as versões jovens de K e da agente O, descobrindo segredos que jamais suspeitava.

O que Barry Sonnenfeld consegue recuperar mais rapidamente é a energia e a criatividade das sequências de ação, tendo dois bons exemplos no primeiro ato: a fuga de Boris da prisão na luta que envolve um engenhoso método e a demonstração de suas habilidades desagradáveis – uma união eficiente de adrenalina e da excentricidade dos alienígenas; e o tiroteio travado pelos agentes J e K com alguns vilões em um restaurante que mostra a violência estilizada das armas espaciais e as variadas composições físicas dos extraterrestres. Esse segmento da narrativa ainda é eficiente na dinâmica entre os dois personagens principais, oferecendo bons momentos cômicos decorridos da sisudez e falta de expressão emocional de K e da malandragem e desembaraço de J.

Após a indicação do conflito central e da necessidade de J voltar ao passado para salvar seu companheiro e o planeta, a ficção científica volta a ganhar força. A trama de viagem no tempo é explorada de maneira a desenvolver e ampliar os desafios de James, mas também a criar situações próprias para o humor. As convenções típicas do subgênero são apontadas, como o estranhamento de alguém do futuro com as características do passado, a dificuldade de personagens aceitaram a viagem temporal, a importância de respeitar as regras desse processo sob o risco de provocar contradições na linha cronológica, o encontro da mesma pessoa em suas versões nova e velha etc. Simultaneamente, a comédia é construída em torno da interação de J com outros personagens e o cumprimento das etapas da missão, como conhecer um K jovem e ligeiramente diferente, se deparar com os equipamentos da agência em 1969 e reconhecer a situação social e política dos EUA no período.

O regresso a 1969 permite também uma rica reconstituição de época através do design de produção. A agência traduz sua condição naquele contexto, pois os ambientes são relativamente mais vivos e de cores mais fortes do que aquilo que se tornou nos anos 1990 e 2000, e os apetrechos tecnológicos são muito grandes e compatíveis com os conhecimentos daquele cenário (um neuralizador que ocupa toda uma sala e mochilas a jato que parecem uma nave). Além disso, os figurinos e os objetos cenográficos estabelecem a ambientação histórica: jornais indicam as épocas por onde J passou durante o salto temporal (crise econômica de 1929 e a Segunda Guerra Mundial, por exemplo) e o grande episódio da viagem à Lua em 1969; as vestimentas de muitos figurantes aludem ao movimento hippie; e a batida policial enquanto J dirigia em alta velocidade representa os preconceitos sofridos pelos negros.  

A identidade própria do roteiro ajuda o elenco central, diferentemente do que ocorreu no filme anterior. Mesmo tendo pouco tempo de tela, Tommy Lee Jones volta a se sentir confortável como um sujeito ranzinza e fechado emocionalmente que protagoniza momentos engraçados. Quem tem espaço suficiente para compor seu personagem é Josh Brolin, que cria K com alguns traços de seriedade e pouca expressão facial, mas ainda dono de um humor excêntrico e de uma leveza nas relações sociais. Já Will Smith novamente aposta em seu carisma para compor J, investindo no timing cômico de pausas propositais, inflexões vocais e caras e bocas específicas (apesar de serem forçados esses recursos em algumas ocasiões) e conseguindo também transmitir a urgência da missão.

A galeria de personagens inclui coadjuvantes muito bons. Boris representa um vilão ameaçador e caricatural sob medida com sua composição física desagradável (sem um braço, “óculos” vedando seus olhos, vermes nos membros e uma voz de grunhidos) e frases marcantes (“Eu não sou um animal” e “Vamos concordar em discordar”). Andy Warhol  aparece como um tipo cômico dentro daquele universo, sendo um agente infiltrado que simula as características físicas e os trejeitos do artista. E Griffin é disparado o alienígena mais interessante da trilogia, tendo o poder de observar diferentes linhas temporais de maneira cômica ou trágica, a depender da situação.

MIB: Homens de Preto 3” resgata o equilíbrio entre comédia, ação e ficção que havia se perdido no segundo filme. Não alcança o mesmo nível do primeiro, mas proporciona uma experiência divertida preenchida por estilos distintos que se aproximam inclusive do drama sentimental. O clímax do terceiro ato e o encerramento da produção são uma homenagem honesta aos agentes J e K, criando um laço emocional entre eles que não dispensa o humor absurdo característico de uma história de alienígenas e viagem no tempo.

Um resultado de todos os filmes que já viu.